30.5.06

Desencontro-te amanhã








Vejo-te ao longe, tal como me vês.
Os olhares de outrora dão lugar a acenos de constrangimento.

A fiandeira reserva-me outros alinhamentos.

24.5.06

Quando têm a mania que nos conhecem muito bem, mas na realidade não têm é perspicácia suficiente para distinguir que estamos, mesmo, só a brincar!

- Estás mal disposto? Ah... Deve ser olhado... Não notaste ninguém a olhar para ti?
- Er... Nada fora do normal! Eu estou habituado a que olhem para mim!
(risos meus!; Silêncio e revirar de olhos do outro lado)


"Auto-estima é contigo!" - Conhecem-me tão bem! Lol

17.5.06

Laranja ou novelos?

Corto a laranja, em duas partes. Olho.

Nelas, um vestido de noiva estendido a secar sobre telhados. A menina-pássaro flamejante dos meus livros aos quadradinhos. Dois amantes, separados, algures num mundo em forma e tamanho de ervilha. Quatro sorrisos de encantamento, juntos ao par. A personagem agridoce que se banha ao sol e mordisca flores secas, ao luar. O relógio no pulso de joaninha que não voa. As ilhas sem ponte. As estruturas brancas sobre fundo aguarelado. Pequenos vulcões com espuma de mar. Dois novelos sussurrando histórias ao entardecer.

Saudades mortas

Então, olá! Já tinha saudades tuas!
Não me lembrava desses traços na tua cara… tão pouco de como falas compulsivamente e sem parar. Esse som melado, também já me tinha esquecido dele.
Essa tua forma de combinar os truísmos com o riso, temperado de júbilo até me fez rir, por instantes. Pois… ainda não sabes tudo. Não foi desta!
A nossa sombra de outrora… também sentia falta dela, mas a sua frieza intimidou-me. Trouxe ao de cima uma timidez que julguei perdida há muito. Já não a conheço (à sombra!). Seu cabelo ainda dança ao vento, mas as valsas são outras. Adeus sombrinha.

De repente, vi o de outrora e depois, o de sempre.
I do not miss you, anymore!
Até à próxima! Estranhamente conto com ela, como com o sol que amanhã se espreguiçará no lençol azul do céu.

6.5.06

Dream a little dream


Olhou o relógio. Há 7 dias atrás, perguntava-se se te encontraria, por aqui. Se teriam mais uma dessas conversas improváveis. Pensou que sim! Planeava vestir o uniforme do verde que tu gostas.
Ficou, o dia, a pensar. Pensou-te no meio dessa, estranha mas envolvente, multidão. Sonhou-te a sussurrar “vamos embora daqui”.

Não te viu! Lembrar-te-ias?
Hoje, tantos dias passados, sorri – “Até à próxima, que é, já, daqui a pouco.”

5

Cantas cada uma dessas tuas canções emprestadas.
Sabes o nome deles de cor – os minutos de cada uma das horas.
Conheces os sinais do seu corpo, de quando, ainda, por eles passavas as mãos.
Saboreias cada pedaço de sal do que, cheio de vontade, levas à boca.

Não soubeste por que nome lhe chamar, nesse dia.
O agora é sempre!

4

Doce mercúrio beija o chão, ao lado dos vidros que deixaste cair. Não os juntes! Gosto mais deles assim… Desenham o percurso de outrora; de quando fazias padrões com os pés sobre a tijoleira, pintando a vermelho.

Gosto mais do chão, assim… sem tanta ordem ou perfeição!

3

Hoje, acordaste e esqueceste.
A bem ver, nem chegaste a adormecer. A noite tinha passado e tu só olhavas os seus cabelos sobre o pescoço tocado pelo sol – sempre tocado pelo sol! Nem é que procures o seu toque… Acabas por encontra-lo; ou melhor, ele a ti!

Acordaste e fechaste-o – ao corpo. Voltaste para a roupa que tinhas deixado no chão. São horas!
Esquece.

2

Comparou o mundo a uma ervilha. Uma pequena ervilha, numa qualquer vagem soprada pelo vento.

Por pequenina que fosse, como a princesa do conto que a sentia mesmo sob os 77 colchões e colchas, conseguiu surpreender e recontar as histórias que eu havia segredado.
Tão cíclicas! Tão facilmente adulteradas.

Este contador está cansado das ditas coincidências.

Procura-se nova ervilha! Até pode ser cor-de-rosa como a do blog!

1

Sento-me, à espera de mais uma das tuas histórias. Tens uma para cada dia que passa – pelo menos uma!
Sento-me para ouvir. Não que goste delas – não penses! Já se tornaram um hábito.
Gostava de saber é se as inventas, qual contador ou Sherazade! Também tinhas umas para te contar… Ficam para a próxima!

4.5.06

Mapas

Olhas para o relógio e vês o ponteiro dos minutos mudar para os 11. Sobrepõe-se ao das horas.
Tiras os alfinetes que te tapam as cicatrizes e atira-los para o chão.
Antes de adormeceres, lambes a pele, tentando apagar pegadas.

Ainda, consegues seguir alguns desses mapas que te traçaram no corpo... Não te invejo!

3.5.06

A conversa mais improvável

- Olá! Ao tempo que não te via!
- Mas… lembras-te de mim?
- Claro! Claro que sim! Estavas ali… ali à frente… Saltavas muito. Rias. Cantavas. Já te tinha visto, uma vez, antes. Estavas no mesmo sítio, julgo eu… Usavas o meu verde e também saltavas… usaste sempre esse verde! O teu verde que se fez meu.

I’ll see you in another life”… quando aprendermos a miar. Quando tivermos a telha como cama e o zinco como sofá.

Talvez fale contigo... amanhã!


Três anos passados desde a última vez que o disse. Três anos passados e muitas conversas depois… mas não nossas! Não! Nós já não usamos palavras; não entre nós, isto é.
Não!
Não foi o assunto que se esgotou, foi o peso do que não ficou dito.
Sabes… pesam-nos as entrelinhas. E quem diria que pudessem pesar tanto?

Em tempos pensei que eras um desses virús que não se cura… Sabes? Aqueles que são trocados entre lábios de amantes. Mas nós nunca fomos amantes; não é mesmo?

Ainda estás aí? Sabes… é que não sei. Não falamos… mas fingimos que sim!
Fingimos haver assunto, quando me cruzas o caminho.
Tornamo-nos peritos nisso, não foi?
Tu em fingir que não o sabias e eu fingindo acreditar que sim! Tu nas maçãs verdes que me atiravas e eu nos quadros que não quis pintar… Pintaria outros e esses que me ditavas, a seu tempo!

No último café turvo que tomámos, o tempo teimou em não passar, mesmo quando soprei o ponteiro dos minutos e forcei o das horas… Como no livro que me emprestaste, não foi? Entre nós? Sempre, sempre as horas! Não tuas, mas minhas!
Em algumas delas pensei, em carmim, em falar contigo “amanhã”, sempre amanhã porque tornaria tudo mais fácil.

Agora jazem os tempos mortos de outrora e as máscaras que insististe em colocar.

Entre nós, sempre as entrelinhas e sempre o amanhã.

Um dia destes, falamos! Não tem é de ser, já, no amanhã.

2.5.06

Entre duas canções

Conta-me histórias... mas sem mais contos de embalar!

O ninho ou o melhor sítio do mundo

A propósito de alguém que escrevia sobre sua metade de laranja e um abraço oferecido e aconchegado - “o melhor sítio do mundo".

Dei comigo a olhar-vos com outros olhos; com certeza, pedi-os emprestados a alguém, visto que era um olhar tão diferente de todos os que vos tinha dado.
Olhei-os sem os ver ou vi-os pela primeira vez?
Ternurentos. Doces. Amantes. Ou estará no meu olhar?

São felizes, vocês? Parecem-me!

19.4.06

Quando


Quando os novelos crescerem tanto que beberão a água dos oceanos e os gatos atravessarem o espaço deixado, transportando brincos de princesas para enfeitar teias de aranha, eu ficarei, aqui, olhando as pegadas e semeando silêncios.

Sal na boca e água nas mãos




Nunca tinha visto o mar, apesar de viver numa ilha. Sabia que aqueles altos e montes eram rodeados por um líquido azul, habitado por criaturas de armadura prateada, onde iam desaguar as lágrimas dos desgarrados e esquecidos.

Por muito tempo hesitou em seguir aquela água que tilintava até depois dos vales. Uns dias, seguia-a até ouvir estranhas gentes com falares diferentes do seu, mas acabava, sempre, por voltar ao seu habitáculo…seguro, familiar, conhecido.

Num entardecer, porém, uma dessas criaturas de sítios distantes e pele beijada pelo sol atravessou-lhe o caminho. Olharam-se e reconheceram-se apesar de nunca se terem visto até aí.
A noite caía e com ela o orvalho – seria assim o mar? Fresco…chegando sem darmos por isso e só reparando nele quando as gotas nos beijavam a pele? Quando já era tarde. As palavras trocadas durariam aquela noite apenas. Não mais. A criatura pelo sol tocada perguntou-lhe o que queria porque pouco podia oferecer.

- O mar. Apenas o mar… - disse-lhe

- E o mar terás! – respondeu-lhe.

Na manhã que se seguiria, trouxeram-lhe o sal na boca e água nas mãos.

Seguiu-se um adeus.
Não se voltariam a ver. Não voltaria a provar sal daquela boca ou sentir água daquelas mãos. Não… mas os beijos trocados traçariam o mapa até à praia, onde ficou de olhos postos no horizonte até ao fim dos tempos, esperando.

27.2.06

Porque os novelos também contam histórias


"Ninguém sabe onde e quando começa uma história, ou melhor, uma história tem muitos afluentes: há o dia em que P.J. Harvey encontra uma capela dedicada a Santa Catarina no alto de um monte; há a canção de Björk a fornecer a metáfora do novelo; há José Barrias a lembrar que “este romance nunca existiu”; há a multifacetada figura de Santa Catarina de Alexandria ao fundo, no início do novelo. Conta-se que era uma mulher bela, de nobre linhagem, sábia, que decidiu dedicar-se inteiramente à religião cristã. Foi capaz de bater em torneio filosófico cinquenta doutores de Alexandria e convertê-los, repudiou o imperador Maximiano em nome do seu compromisso com a fé, e escapou ao martírio da roda, a que este a condenara. Foi depois decapitada mas, também na morte, continuaram os prodígios: das suas feridas brotou leite em vez de sangue e os anjos levaram o corpo e a cabeça para o Monte Sinai. Trata-se de uma santa que durante séculos gerou acesas devoções, tida por poderosa intercessora junto a Cristo, e nessa qualidade invocada tanto pelas donzelas casadoiras, como pelos teólogos, filósofos e estudantes, ou pelos diversos ofícios que se serviam da roda: oleiros, carroceiros, moleiros, etc.. Se a veracidade histórica desta mártir acabou por ser posta em causa pela Igreja, que a retirou em 9/5/1969 do calendário litúrgico oficial, continuam bem palpáveis, no entanto, os vestígios da fé nela depositada ao longo do tempo.
É esta permanência das efabulações antigas que Pedro Berenguer recolhe para tecer inesperados laços com as bem actuais ficções da mulher/manequim. Tudo isto, no seu trabalho, é matéria-prima para uma prática da pintura enquanto narrativa, que ele constrói quer pela figuração fragmentada em vários painéis, quer pela incorporação de textos, mapas e percursos, quer pela propositada técnica de acumulação de papéis e de camadas de tinta transparentes, que vão adensando a superfície pictórica e criando mistério, nas suas sucessivas ocultações. As histórias e as imagens alheias de que se apropria misturam-se com as suas indestrincavelmente, tal como acontece com os materiais e as técnicas que usa, entrecruzando colagens, transferência e pintura.
De uma narrativa se diz que se desenrola, mas ninguém sabe quando, e onde, e como, acaba uma história, pois a qualquer momento ela pode ser reactivada."

Isabel Santa Clara
Maio de 2004

Para estrear o blog e porque a citada compreendeu o título melhor do que ninguém (da Exposição e, presentemente, do blog)... e, também, porque fiquei todo babado por este texto ter sido escrito de propósito para mim!!