7.9.06

Pêssego e Açafrão

Lembrava-se de ter lido, há anos, um texto qualquer sobre cheiros e a memória, e como ambos estavam tão ligados como as unhas e a carne.
O texto, encontrado num livro esquecido no sótão, falava sobre um canguru. Este encontrava-se intrigadíssimo com um odor que lhe era familiar, nunca percebendo de onde viria. Tendo percorrido o Mundo inteiro e caído de cansaço reparou que o cheiro vinha dele mesmo, da sua bolsa.
Mais recentemente, ao visitar um blog que lhe é querido, deu com a autora (que brilhantemente escreve) a descrever o cheiro de broas quente com manteiga acabadas de sair do forno da avó.
Nesse dia, recordou um encontro envergonhado no vão de escada e a conversa improvável que se seguira.

- Olá andorinha!
- Como sabias que era eu?
- Cheirei-te quando vinhas no andar de baixo.
- Cheiraste-me? E a que cheiro eu?
- A andorinha!
- Já cheiraste uma andorinha?
- Não, mas calculo que cheirem a pêssegos frescos e a especiarias de longe, embaladas pelo vento.
- Ah… Cheiro a pêssegos frescos!
- Claro que não! Mas pêssegos são doces e macios...
- Então e as especiarias? É o meu ar exótico?
- Tu não tens um ar exótico… Mas, novamente, disse-o porque achei que ficava bem. Seja como for não sei descrever-te a que cheiras! Sei que vicia como chocolate. Sei que pede aproximação. Sei que se liberta e infesta o ar por onde passaste. Sei que o farejo, ao longe, como fazem os cães e o levo comigo para todo o lado onde vá, entranhado na roupa, como naquela noite em que te encostaste a mim e nem com água a ferver te consegui afastar.
(silêncio)
- Então adeus, oh andorinha!
- Então adeus, oh voador.

Sorrira para dentro, mas bem para dentro para não dar a perceber. Seguir-se-iam um “olá”, rápido e fugidio como água nas mãos, e semanas a temer um mero vão de escada.

5.9.06

A Carta

"Put the pen
To the paper
Press the envelope
With my scent
Can't you see
In my handwriting
The curve Of my g?
The longing"
(P.J.Harvey)
Dentro de ti guardaste uma carta com destinatário, mas rumo incerto. Levaste-a a passear a três ou quatro cantos do Mundo, sempre de olhos postos no firmamento como as andorinhas quando procuram o calor.
Nestes dias de ardência imensa, em que os homens descansam sob pomares e bebem sumos da terra para se refrescar, lembraste-a e fitando o escrito e libertaste-o ao vento.
Antes de levantares voo fitas o ontem de relance. Esse ontem cheio de frutos sumarentos e cor adocicada.
Semeias o que tinha ficado por dizer e jubilas com a tua própria permissão. Já não precisas engolir toda a água dos riachos, nem tão pouco ter o mar nos olhos.

4.9.06

Nem com maçãs te apago


Acordara mais cedo do que o habitual naquele dia e pensou ter engolido um sol. Sim! Um sol inteiro, quente e bulboso tal era o calor e a sede que sentia.
Soube desde logo que aquele não era um calor comum. Já o tinha sentido em tempos mas a chuva de fim de Inverno tinha-o conseguido apagar. Depois quando pressentia que o calor pudesse chegar, tratava de abrir a caixa de novelos que guardava no sótão e fiar uma mais história. Depois outra e depois outra, cada uma delas mais gélida que a anterior de forma que o Verão não chegasse.
Temeu o Verão mais do que qualquer outra das estações. Naquela manhã de Setembro, enquanto outros se preparavam para o arrumar na mala, sentiu a sua chegada. Era silenciosa para todos, menos para si. Em vez do sossego que todos pareciam sentir, ouvia a voz desse sol inteiro dentro de si.

Familiar como era, aquele calor, resolveu matá-lo, não com histórias contadas de “eu para eu”, mas com maçãs. Era isso! Sim! Maçãs! Passaria o dia a maçãs… umas depois das outras. Primeiro, vermelhas cor-de-sangue e depois outras tantas verdes (do verde mais frio e ácido que conseguisse encontrar). Se entretanto o calor persistisse comeria garfadas de gelo e mergulharia até ao fundo do oceano, não para falar com peixes mas para apagar aquele estranho arder.

A passagem do dia seria vagarosa, tão vagarosa que sentiria o lento andar dos segundos no grande relógio que cantava na sua pequena casa cor-de-rosa. O sol que sentia dentro de si parecia ter-se alastrado e infectado a própria casa, que, agora, pulsava como um coração gigantesco e contentor.
Seguiria o plano agendado e o verão daria lugar a um Outono precoce… Sim, tinha de ser! Não gostava do Verão – já o decidira e não voltaria atrás com tão pesada decisão. Odiaria o Verão, como até aí. Aquele era , afinal, um dia como os outros, marcado (talvez sim) de forma diferente no seu calendário… mas um dia como os outros.

Com o cair da noite, vestiu o linho mais fresco que tinha no armário, não fosse a temperatura subir outra vez e esfregou-se nas maçãs de pele castanha e áspera como a língua de gatos e de cheiro intenso, que lhe cobriam o chão do quarto.
Olhou uma última vez para o relógio barulhento. Mais umas horas e o novo dia chegaria. Se evitasse trocas de olhares, o sol apagar-se-ia assim como se tinha aceso, pensou.
Tudo correria como planeado a não ser por dois ou três lapsos - teriam sido mesmo tão poucos? Sentiria o sol crescer mais uma vez e nem mesmo o virar do calendário pareceria afectá-lo.

O convite para o mergulho tardio parecera-lhe, então, tão tentador como acertado. Mergulharia até ao fundo. Sim! Era esse o novo plano. Desde que evitasse ostras, o sol apagar-se-ia.
Não se viria a apagar, no entanto.
O calor, como uma infecção, passaria para a água do mar e para o corpo ao lado, ou teria sido ao contrário?
Parou de tentar contê-lo. Agarrou-o com ambas as mãos e saboreou-o sofregamente como se de uma sardinha assada se tratasse.
Sim chegara o Verão para si também e não o conseguira evitar. Tinha-se rendido a ele e à geografia dos seus próprios limites.


Não culparia aquele estranho sumo rosado com frutos a boiar. Não culparia sequer as maçãs ou o gelo que de tão quente não tinha apagado o sol. Não culparia sequer os olhos que teimavam em aparecer aqui e ali.
Culparia cada um dos novelos. Culparia cada uma das histórias por eles contadas. Culparia a casa que pulsava.
Sim… Chegara o Verão!

1.9.06

Explosão agridoce


Quase dois meses, sem aqui pôr pés ou escrever fosse o que fosse; em vez disso, dei comigo a magicar este e aquele post enquanto os dias corriam como areia entre as mãos. Bom... alguns dias!
Façamos o balanço:
Um ipod roubado – checked!
Uma pintura desaparecida – checked! (e sim… vai alguém pagar os 500 euritos! Mais não seja quem o tinha pedido para andar a tapar buraco em exposições, aqui e ali)
Malucos stalking me – checked! (dois detectados: ex-professora completamente perdida e junkie)
Trolhas e pintores por toda a casa – quantos “checked” devo pôr aqui?
“Cenas estranhíssimas”, chamemo-lhes assim! – checked! (e excluindo as outras!)

Ah pois… fora quase dois meses de “el doce faire niente”, nem sempre assim tão doces (mas quem não gosta de um pouco de agridoce?) e a caminharem para o fim. Corram! Corram grãos de areia… corram para outra praia. Uma a distância de um ano, não luz!

Mas antes disso:

“Excuse me
But I just have to
Explode

Posso? É que isto até para explodir está difícil!
Tenho de pedir “se faz favor”?
É que, desta vez, não peço.

“I'll be brand new

Brand new tomorrow

A little bit tired

But brand new!”
(Obrigado, oh Bjork!)

6.7.06

Matilde



Longe vão os tempos em que tomavas cafés adocicados enquanto vias, deliciada, os estrangeiros (e os conhecidos!) passar. Rias-te com os nossos comentários mordazes sobre os transeuntes e eu também!
Hoje a tua delícia é outra – olhas a ecografia da ervilha que abraças em ti, confortada pelo calor que ela te traz.

Não estás, contudo, certa das companhias de hoje ou de amanhã. A indeterminação segue-te, uma vez mais!
Não sabes o que ou quem irás consumir ou mesmo como morderás as horas que te seguem.
Tão pouco sabes se as tuas muralhas de cartão sobreviverão a intempéries que conheces como certas.
Sabes, apenas, a segurança de um começo.

És vagem que baloiça nos ervilhais contendo em si a promessa do amanhã.

1.7.06

O que te faz chorar?




- O que te faz chorar?
- Os filmes e as canções! Fazem-me chorar os filmes, mas só quando ninguém está a olhar… Sabes que os icebergs não derretem mesmo no Inverno, não podem verter água ou o mundo inteiro seria engolido. É uma questão de altruísmo, percebes? (risos)
- Sim. Tens razão! Icebergs não podem chorar.
- Então e a ti? O que te causa lágrimas?
- As saudades! As saudades matam-me! Não aquela simples melancolia ou tristeza que bate de vez em quando… Saudade, esse sentimento tão português!


E senti-me, eu, mais português nesse mesmo instante do que em semanas a levar com bandeiras e a ouvir falar de golos.
Tenho dito!

17.6.06

Viagem em Balão Amarelo

Apanhei boleia desse teu balão amarelo, tricotado com pêlos de ovelha, não para longe ir, mas para aqui não ficar.
Lá, em baixo, os guarda-chuvas coloridos movimentam-se ritmadamente ao som de um compasso que me é inaudível. Não consigo destrincar a música, nem tão pouco a chuva que me parece cair. Penso que as preocupações com o rol de coisas para fazer me turvam a vista. Triste ser cego, sem realmente o ser! Ou talvez não…

Apanho boleia desse teu balão amarelo, uma última vez. Estas viagens não são para mim. Gosto de ter os olhos bem abertos!

30.5.06

A mais longa viagem


Então adeus! Não tem de ser um até logo… pode antes, mesmo, ser um até sempre!
Podemos trocar um beijo (ou não) e fico aqui a olhar. Aceno e tu também.

Ficamos os dois com esta ideia de quase perfeição que nunca existiu. Espera. Talvez seja melhor mesmo sem despedidas – não gosto delas! Só ficam bem nos filmes, com a capa fria que o ecrã ou o projector nos permite.
Não! Não quero despedidas. Já decidi. Tenho essa opção, não tenho?
Dura esta ideia de que te encontro, amanhã, no sítio do costume. Primeiro, começo por não poder te visitar. Depois és tu, depois nenhum e depois esquecemo-nos… pelo menos até aos aniversários e aos natais. Posteriormente, até podemos nos esquecer de alguns deles. Rasgas as páginas do teu calendário e eu da agenda.
Ficam o tudo e o nada ditos. Prefiro assim. Sempre preferi as entrelinhas – irrita-me a evidência do óbvio. Mas isso já sou eu com as minhas complicações.

Vai embora, que eu finjo que não percebo.
Podes ir… “Nice to know you. Pleased to meet you” como na canção.
Adeus. Beijos.”, como diz a outra.

E não é sempre assim?

Desencontro-te amanhã








Vejo-te ao longe, tal como me vês.
Os olhares de outrora dão lugar a acenos de constrangimento.

A fiandeira reserva-me outros alinhamentos.

24.5.06

Quando têm a mania que nos conhecem muito bem, mas na realidade não têm é perspicácia suficiente para distinguir que estamos, mesmo, só a brincar!

- Estás mal disposto? Ah... Deve ser olhado... Não notaste ninguém a olhar para ti?
- Er... Nada fora do normal! Eu estou habituado a que olhem para mim!
(risos meus!; Silêncio e revirar de olhos do outro lado)


"Auto-estima é contigo!" - Conhecem-me tão bem! Lol

17.5.06

Laranja ou novelos?

Corto a laranja, em duas partes. Olho.

Nelas, um vestido de noiva estendido a secar sobre telhados. A menina-pássaro flamejante dos meus livros aos quadradinhos. Dois amantes, separados, algures num mundo em forma e tamanho de ervilha. Quatro sorrisos de encantamento, juntos ao par. A personagem agridoce que se banha ao sol e mordisca flores secas, ao luar. O relógio no pulso de joaninha que não voa. As ilhas sem ponte. As estruturas brancas sobre fundo aguarelado. Pequenos vulcões com espuma de mar. Dois novelos sussurrando histórias ao entardecer.

Saudades mortas

Então, olá! Já tinha saudades tuas!
Não me lembrava desses traços na tua cara… tão pouco de como falas compulsivamente e sem parar. Esse som melado, também já me tinha esquecido dele.
Essa tua forma de combinar os truísmos com o riso, temperado de júbilo até me fez rir, por instantes. Pois… ainda não sabes tudo. Não foi desta!
A nossa sombra de outrora… também sentia falta dela, mas a sua frieza intimidou-me. Trouxe ao de cima uma timidez que julguei perdida há muito. Já não a conheço (à sombra!). Seu cabelo ainda dança ao vento, mas as valsas são outras. Adeus sombrinha.

De repente, vi o de outrora e depois, o de sempre.
I do not miss you, anymore!
Até à próxima! Estranhamente conto com ela, como com o sol que amanhã se espreguiçará no lençol azul do céu.

6.5.06

Dream a little dream


Olhou o relógio. Há 7 dias atrás, perguntava-se se te encontraria, por aqui. Se teriam mais uma dessas conversas improváveis. Pensou que sim! Planeava vestir o uniforme do verde que tu gostas.
Ficou, o dia, a pensar. Pensou-te no meio dessa, estranha mas envolvente, multidão. Sonhou-te a sussurrar “vamos embora daqui”.

Não te viu! Lembrar-te-ias?
Hoje, tantos dias passados, sorri – “Até à próxima, que é, já, daqui a pouco.”

5

Cantas cada uma dessas tuas canções emprestadas.
Sabes o nome deles de cor – os minutos de cada uma das horas.
Conheces os sinais do seu corpo, de quando, ainda, por eles passavas as mãos.
Saboreias cada pedaço de sal do que, cheio de vontade, levas à boca.

Não soubeste por que nome lhe chamar, nesse dia.
O agora é sempre!

4

Doce mercúrio beija o chão, ao lado dos vidros que deixaste cair. Não os juntes! Gosto mais deles assim… Desenham o percurso de outrora; de quando fazias padrões com os pés sobre a tijoleira, pintando a vermelho.

Gosto mais do chão, assim… sem tanta ordem ou perfeição!

3

Hoje, acordaste e esqueceste.
A bem ver, nem chegaste a adormecer. A noite tinha passado e tu só olhavas os seus cabelos sobre o pescoço tocado pelo sol – sempre tocado pelo sol! Nem é que procures o seu toque… Acabas por encontra-lo; ou melhor, ele a ti!

Acordaste e fechaste-o – ao corpo. Voltaste para a roupa que tinhas deixado no chão. São horas!
Esquece.

2

Comparou o mundo a uma ervilha. Uma pequena ervilha, numa qualquer vagem soprada pelo vento.

Por pequenina que fosse, como a princesa do conto que a sentia mesmo sob os 77 colchões e colchas, conseguiu surpreender e recontar as histórias que eu havia segredado.
Tão cíclicas! Tão facilmente adulteradas.

Este contador está cansado das ditas coincidências.

Procura-se nova ervilha! Até pode ser cor-de-rosa como a do blog!

1

Sento-me, à espera de mais uma das tuas histórias. Tens uma para cada dia que passa – pelo menos uma!
Sento-me para ouvir. Não que goste delas – não penses! Já se tornaram um hábito.
Gostava de saber é se as inventas, qual contador ou Sherazade! Também tinhas umas para te contar… Ficam para a próxima!

4.5.06

Mapas

Olhas para o relógio e vês o ponteiro dos minutos mudar para os 11. Sobrepõe-se ao das horas.
Tiras os alfinetes que te tapam as cicatrizes e atira-los para o chão.
Antes de adormeceres, lambes a pele, tentando apagar pegadas.

Ainda, consegues seguir alguns desses mapas que te traçaram no corpo... Não te invejo!

3.5.06

A conversa mais improvável

- Olá! Ao tempo que não te via!
- Mas… lembras-te de mim?
- Claro! Claro que sim! Estavas ali… ali à frente… Saltavas muito. Rias. Cantavas. Já te tinha visto, uma vez, antes. Estavas no mesmo sítio, julgo eu… Usavas o meu verde e também saltavas… usaste sempre esse verde! O teu verde que se fez meu.

I’ll see you in another life”… quando aprendermos a miar. Quando tivermos a telha como cama e o zinco como sofá.