28.9.06

Pensar em grande

Isto a ver bem, até ao fim do ano, se a história se arrastar, muita cabeça vai rolar!

27.9.06

Quando eu for rei

E ao me chamar “menino”, com aquele tom de quem por algum motivo se julga superior a mim, pela centésima vez, dei o meu olhar mais feroz, saltei-lhe em cima e depois de a ter esmurrado até ver vermelho a sujar as carpetes brancas, gritei:
“Off with her head!”

O homicídio nunca fora tão doce ali ou em lugar algum.

24.9.06

À espera


“Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos imensos esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.”

Michael Cunningham, in “As Horas”

Enquanto gatos dormirem em telhados de zinco, mais ou menos temperado, fico, aqui, a ver os novelos a rebolar e a poeira assentar.

Depois das histórias contadas, os rostos tornam-se de outros – o meu e o teu. Não sei bem se a nós deixam de pertencer, mas pelo menos às pessoas que fomos. Nessa cama fica o vazio do meu corpo e em mim a ausência do teu cheiro. Os restos de nós que já não são.

Vais por aí e eu por aqui. Escreves um novo capítulo no teu livro e eu continuo com o desenho anterior.
Naquele caderno de couro avermelhado, esboço-nos um final alternativo.
Fechas a porta. Vou esquecer que, às vezes, isto também faz doer.
Hoje finjo que não vou retroceder e digo-te adeus.


Volto à casa antiga se disseres o meu nome, baixinho. Bai-xi-nho e soletrando-o dentro da minha boca, enquanto encostas o teu corpo ao meu.
Chama-me se quiseres. Eu espero, mas fingirei não estar.
Chama-me antes que parta outra vez, para lugar onde não mais se espera o que já não volta.

21.9.06

Bonecas Russas

Naquele filme, que vira numa tarde tórrida de Verão enquanto as massas faziam praia, em que Xavier comparava o jogo do amor e da sedução às Matryoshkas, tudo parecia ter-lhe sido esclarecido. A uma boneca russa seguir-se-ia uma e uma outra, e cada uma das vezes, indagar-se-ia se era aquela a última… ou “the one” como dizem no cinema. Cada uma das vezes, tentaria abri-la... não fosse estar uma, mais pequenina e perfeita, escondida lá dentro.
Gostara daquela imagem, tanto como do beijo dourado de Klimt que o fascinava ainda como naquela primeira vez que o tinha visto num livro de Filosofia. Guardara-a como se acautelam os segredos ou lábios roubados. Fizera dela lema e truísmo, até ao dia em que o ontem lhe bateu à porta e ocupou-lhe o hoje e o amanhã. Nunca contou que uma das bonecas, deixadas para trás (pensava ele) lhe despertasse o desejo antigo de desvendar, abrir e possuir.

“I already had let you go”

Porque, por vezes, não conseguia abafar as vozes lá de dentro e porque não haviam lãs que lhe adocicassem com alinhavos a crueza do discurso, olhou em frente e disse-lhe:
- Sim bebé... é verdade! Lamento ser-te eu a dizer isto, mas não és a última Brisa aqui do sítio.

20.9.06

A Festa

I think she's the saddest girl to ever to hold a martini.

A noite caíra e trouxera as gentes de todos os sítios, com as suas gargalhadas estridentes e conversas de ocasião para aquela festa. As prendas amontoavam-se ao pé da cadeira Hepplewhite.
Juliana sorvia, golo após golo, aquele que lhe parecia ser o martini mais interminável e fitava o casal a falar. Olhou-os enquanto trocavam os sorrisos e palavras embaraçadas de quem acabara de se conhecer. Ela que usava o decotado vestido vermelho comprado uma semana antes a pensar na ocasião - o aniversário dele - e calçava sapatos às tiras. Sentiu-se mais nua do que nunca. Mais nua do que tinha estado na véspera quando lhe levara canja de galinha para curar a gripe de ambos. Mais despida do que quando correra para o mar, naquela noite, após as mensagens de telemóvel dele. Mais descoberta do que quando tomara duche aquele Domingo tardio, antes de voltar para casa.
De olhos postos nos dois, mordiscava os lábios enquanto soltava dois grandes prantos silenciosos. Apenas dois!
Àquele copo de martini seguir-se-ia outro, e outro e mais outro ainda… Até perder conta de quantos copos tinha tomado. Dançaria o resto da noite com cada um dos olhares que coleccionara, tendo-os aos dois sempre em mente. Eles que, entretanto, haviam desaparecido, por entre as caras menos e mais familiares, para o carro dele.
Adormeceria num canto qualquer a lamber as feridas que não estavam à vista, mas por baixo da carne, enquanto sonhava com corpos incandescendo ao nascer do sol.

19.9.06

The Best Friend u Can Ever Have



Antes de mais devo dizer que tenho o prazer de chamar a esta grande senhora, de AMIGA.
Não daquelas que só se lembram de nós quando fazemos anos… Não das que só telefonam para as saídas de Sábado à noite… também não das que temos o “prazer” de ver num café mensal ou quando terceiros fazem anos. Não é, tão pouco, daquelas de quem perdermos (ou perderemos contacto).
Sofia Isabel é um daqueles raros achados que já não mais se largam. É daqueles tesouros que se trazem cá dentro sempre no lado esquerdo a caminhar para o meio a pulsar e a bater. E porque tentar definir o indefinível que é esta fabulosa mulher passará sempre por eufemismos da minha parte…

"There ain't nothing no girl so sweet
Took her from heaven and gave her to me"
(PJ Harvey)

“You're already in there
I'll be wearing your tattoo
You're already in there”
(Tori Amos)

“You lye, eyes closed,
nothing left unseen could ever do us harmI
stand, so close, enough to see your dreams
in the beauty of you”
(Coldfinger)

“All my world in one grain of sand”
(Alison Goldfrapp)
PS: Parabéns Bebé! Luv Ya

15.9.06

Apagando estrelas


Porque se cansara de alojar aquele sol imenso e tinha deixado de acreditar em estrelas que não se extinguiam de tanto brilhar, viajou ao Pólo Norte num barquinho de papel e comeu icebergues até cair para o lado. Afinal se o Verão começava a chegar ao fim para os outros, para si não podia ser diferente.
Sim... até as estrelas se extinguem!

14.9.06

A viagem de Alice



Cansada de esperas e de “se’s”, Alice arrumou os novelos que ainda corriam pela casa entre as brincadeiras do gato cinzento que por ali, com ela, habitava, no baú velho que herdara da avó materna. A avó, em tempos, prevenira a neta para o destino dos que passavam os dias de olhos postos no horizonte… Mas Alice, já senhora de seu pequeno mas pontiagudo nariz fazia tranças nos cabelos de Maria Maçã, a boneca de cabelos ruivos, e ria… ria muito alto daqueles monólogos confusos. Porque passaria alguém os seus dias a fitar um mar cujo princípio e o fim nem se viam?
Agora, ao olhar para trás, Alice não se conseguia recordar de uma única vez em que a avó, uma mulher de grandes e ternos olhos azuis e pele enrugada como papel, tivesse abandonado aquela casa de tom rosado que viria a habitar.
Durante muito tempo culpara, a avó e as suas histórias, do rumo que a sua vida tinha tomado, mas deixaria de acreditar em linhas traçadas na palma da mão ou em contos de mulheres que tinham começado a vestir o preto como armadura à espera de algo que não viria.

Era aquele o momento decisivo. Aquele ali e agora. Sim… ali! Na casa com vista para o mar que albergara o sal das outras antes dela.

Nas últimas semanas havia ansiado por um bilhete para lugar nenhum, longe das pontes e das pessoas conhecidas. Ao contrário daqueles jogos que a divertiam em adolescente, em que os castigos eram sempre mais doces que a confissão, este não era, agora, o caso. Chegava de se castigar… afinal nem fizera nada de especial. Sim… chegara daquele sentimento de culpa que lhe percorria o sangue como uma doença.
Deixaria tudo para trás de forma a poder começar de novo. Olharia uma última vez para a casa à qual, jamais, voltaria. A acompanhá-la não iria sequer a velha boneca. Tomaria uma estrada diferente e nunca atravessada algures, à esquerda do meio de um mapa por traçar.
Afinal, para Alice, aquilo já era um começo.

8.9.06

Porque eu falo por enigmas (or so they say!)

- Pensei que só não percebia o que pintavas (não que não goste!). Mas também não percebo nada do que escreves no teu blog… aquilo é para alguém perceber? Nem percebo aquele título os novelos não sei quê…
- … também contam histórias! A mim contam… A ti não?

LOL Deixo desde já, aqui, humilde pedido de desculpas às minhas professoras de português – Rita, Clotilde, Fernanda, Ana, Inês: aparentemente enganei-vos!
Adaptando, então, o que me segreda, ao ouvido, Fiona Maçã (leia-se a grande senhora Apple): “I’ve been a bad bad boy!”

7.9.06

Pêssego e Açafrão

Lembrava-se de ter lido, há anos, um texto qualquer sobre cheiros e a memória, e como ambos estavam tão ligados como as unhas e a carne.
O texto, encontrado num livro esquecido no sótão, falava sobre um canguru. Este encontrava-se intrigadíssimo com um odor que lhe era familiar, nunca percebendo de onde viria. Tendo percorrido o Mundo inteiro e caído de cansaço reparou que o cheiro vinha dele mesmo, da sua bolsa.
Mais recentemente, ao visitar um blog que lhe é querido, deu com a autora (que brilhantemente escreve) a descrever o cheiro de broas quente com manteiga acabadas de sair do forno da avó.
Nesse dia, recordou um encontro envergonhado no vão de escada e a conversa improvável que se seguira.

- Olá andorinha!
- Como sabias que era eu?
- Cheirei-te quando vinhas no andar de baixo.
- Cheiraste-me? E a que cheiro eu?
- A andorinha!
- Já cheiraste uma andorinha?
- Não, mas calculo que cheirem a pêssegos frescos e a especiarias de longe, embaladas pelo vento.
- Ah… Cheiro a pêssegos frescos!
- Claro que não! Mas pêssegos são doces e macios...
- Então e as especiarias? É o meu ar exótico?
- Tu não tens um ar exótico… Mas, novamente, disse-o porque achei que ficava bem. Seja como for não sei descrever-te a que cheiras! Sei que vicia como chocolate. Sei que pede aproximação. Sei que se liberta e infesta o ar por onde passaste. Sei que o farejo, ao longe, como fazem os cães e o levo comigo para todo o lado onde vá, entranhado na roupa, como naquela noite em que te encostaste a mim e nem com água a ferver te consegui afastar.
(silêncio)
- Então adeus, oh andorinha!
- Então adeus, oh voador.

Sorrira para dentro, mas bem para dentro para não dar a perceber. Seguir-se-iam um “olá”, rápido e fugidio como água nas mãos, e semanas a temer um mero vão de escada.

5.9.06

A Carta

"Put the pen
To the paper
Press the envelope
With my scent
Can't you see
In my handwriting
The curve Of my g?
The longing"
(P.J.Harvey)
Dentro de ti guardaste uma carta com destinatário, mas rumo incerto. Levaste-a a passear a três ou quatro cantos do Mundo, sempre de olhos postos no firmamento como as andorinhas quando procuram o calor.
Nestes dias de ardência imensa, em que os homens descansam sob pomares e bebem sumos da terra para se refrescar, lembraste-a e fitando o escrito e libertaste-o ao vento.
Antes de levantares voo fitas o ontem de relance. Esse ontem cheio de frutos sumarentos e cor adocicada.
Semeias o que tinha ficado por dizer e jubilas com a tua própria permissão. Já não precisas engolir toda a água dos riachos, nem tão pouco ter o mar nos olhos.

4.9.06

Nem com maçãs te apago


Acordara mais cedo do que o habitual naquele dia e pensou ter engolido um sol. Sim! Um sol inteiro, quente e bulboso tal era o calor e a sede que sentia.
Soube desde logo que aquele não era um calor comum. Já o tinha sentido em tempos mas a chuva de fim de Inverno tinha-o conseguido apagar. Depois quando pressentia que o calor pudesse chegar, tratava de abrir a caixa de novelos que guardava no sótão e fiar uma mais história. Depois outra e depois outra, cada uma delas mais gélida que a anterior de forma que o Verão não chegasse.
Temeu o Verão mais do que qualquer outra das estações. Naquela manhã de Setembro, enquanto outros se preparavam para o arrumar na mala, sentiu a sua chegada. Era silenciosa para todos, menos para si. Em vez do sossego que todos pareciam sentir, ouvia a voz desse sol inteiro dentro de si.

Familiar como era, aquele calor, resolveu matá-lo, não com histórias contadas de “eu para eu”, mas com maçãs. Era isso! Sim! Maçãs! Passaria o dia a maçãs… umas depois das outras. Primeiro, vermelhas cor-de-sangue e depois outras tantas verdes (do verde mais frio e ácido que conseguisse encontrar). Se entretanto o calor persistisse comeria garfadas de gelo e mergulharia até ao fundo do oceano, não para falar com peixes mas para apagar aquele estranho arder.

A passagem do dia seria vagarosa, tão vagarosa que sentiria o lento andar dos segundos no grande relógio que cantava na sua pequena casa cor-de-rosa. O sol que sentia dentro de si parecia ter-se alastrado e infectado a própria casa, que, agora, pulsava como um coração gigantesco e contentor.
Seguiria o plano agendado e o verão daria lugar a um Outono precoce… Sim, tinha de ser! Não gostava do Verão – já o decidira e não voltaria atrás com tão pesada decisão. Odiaria o Verão, como até aí. Aquele era , afinal, um dia como os outros, marcado (talvez sim) de forma diferente no seu calendário… mas um dia como os outros.

Com o cair da noite, vestiu o linho mais fresco que tinha no armário, não fosse a temperatura subir outra vez e esfregou-se nas maçãs de pele castanha e áspera como a língua de gatos e de cheiro intenso, que lhe cobriam o chão do quarto.
Olhou uma última vez para o relógio barulhento. Mais umas horas e o novo dia chegaria. Se evitasse trocas de olhares, o sol apagar-se-ia assim como se tinha aceso, pensou.
Tudo correria como planeado a não ser por dois ou três lapsos - teriam sido mesmo tão poucos? Sentiria o sol crescer mais uma vez e nem mesmo o virar do calendário pareceria afectá-lo.

O convite para o mergulho tardio parecera-lhe, então, tão tentador como acertado. Mergulharia até ao fundo. Sim! Era esse o novo plano. Desde que evitasse ostras, o sol apagar-se-ia.
Não se viria a apagar, no entanto.
O calor, como uma infecção, passaria para a água do mar e para o corpo ao lado, ou teria sido ao contrário?
Parou de tentar contê-lo. Agarrou-o com ambas as mãos e saboreou-o sofregamente como se de uma sardinha assada se tratasse.
Sim chegara o Verão para si também e não o conseguira evitar. Tinha-se rendido a ele e à geografia dos seus próprios limites.


Não culparia aquele estranho sumo rosado com frutos a boiar. Não culparia sequer as maçãs ou o gelo que de tão quente não tinha apagado o sol. Não culparia sequer os olhos que teimavam em aparecer aqui e ali.
Culparia cada um dos novelos. Culparia cada uma das histórias por eles contadas. Culparia a casa que pulsava.
Sim… Chegara o Verão!

1.9.06

Explosão agridoce


Quase dois meses, sem aqui pôr pés ou escrever fosse o que fosse; em vez disso, dei comigo a magicar este e aquele post enquanto os dias corriam como areia entre as mãos. Bom... alguns dias!
Façamos o balanço:
Um ipod roubado – checked!
Uma pintura desaparecida – checked! (e sim… vai alguém pagar os 500 euritos! Mais não seja quem o tinha pedido para andar a tapar buraco em exposições, aqui e ali)
Malucos stalking me – checked! (dois detectados: ex-professora completamente perdida e junkie)
Trolhas e pintores por toda a casa – quantos “checked” devo pôr aqui?
“Cenas estranhíssimas”, chamemo-lhes assim! – checked! (e excluindo as outras!)

Ah pois… fora quase dois meses de “el doce faire niente”, nem sempre assim tão doces (mas quem não gosta de um pouco de agridoce?) e a caminharem para o fim. Corram! Corram grãos de areia… corram para outra praia. Uma a distância de um ano, não luz!

Mas antes disso:

“Excuse me
But I just have to
Explode

Posso? É que isto até para explodir está difícil!
Tenho de pedir “se faz favor”?
É que, desta vez, não peço.

“I'll be brand new

Brand new tomorrow

A little bit tired

But brand new!”
(Obrigado, oh Bjork!)

6.7.06

Matilde



Longe vão os tempos em que tomavas cafés adocicados enquanto vias, deliciada, os estrangeiros (e os conhecidos!) passar. Rias-te com os nossos comentários mordazes sobre os transeuntes e eu também!
Hoje a tua delícia é outra – olhas a ecografia da ervilha que abraças em ti, confortada pelo calor que ela te traz.

Não estás, contudo, certa das companhias de hoje ou de amanhã. A indeterminação segue-te, uma vez mais!
Não sabes o que ou quem irás consumir ou mesmo como morderás as horas que te seguem.
Tão pouco sabes se as tuas muralhas de cartão sobreviverão a intempéries que conheces como certas.
Sabes, apenas, a segurança de um começo.

És vagem que baloiça nos ervilhais contendo em si a promessa do amanhã.

1.7.06

O que te faz chorar?




- O que te faz chorar?
- Os filmes e as canções! Fazem-me chorar os filmes, mas só quando ninguém está a olhar… Sabes que os icebergs não derretem mesmo no Inverno, não podem verter água ou o mundo inteiro seria engolido. É uma questão de altruísmo, percebes? (risos)
- Sim. Tens razão! Icebergs não podem chorar.
- Então e a ti? O que te causa lágrimas?
- As saudades! As saudades matam-me! Não aquela simples melancolia ou tristeza que bate de vez em quando… Saudade, esse sentimento tão português!


E senti-me, eu, mais português nesse mesmo instante do que em semanas a levar com bandeiras e a ouvir falar de golos.
Tenho dito!

17.6.06

Viagem em Balão Amarelo

Apanhei boleia desse teu balão amarelo, tricotado com pêlos de ovelha, não para longe ir, mas para aqui não ficar.
Lá, em baixo, os guarda-chuvas coloridos movimentam-se ritmadamente ao som de um compasso que me é inaudível. Não consigo destrincar a música, nem tão pouco a chuva que me parece cair. Penso que as preocupações com o rol de coisas para fazer me turvam a vista. Triste ser cego, sem realmente o ser! Ou talvez não…

Apanho boleia desse teu balão amarelo, uma última vez. Estas viagens não são para mim. Gosto de ter os olhos bem abertos!

30.5.06

A mais longa viagem


Então adeus! Não tem de ser um até logo… pode antes, mesmo, ser um até sempre!
Podemos trocar um beijo (ou não) e fico aqui a olhar. Aceno e tu também.

Ficamos os dois com esta ideia de quase perfeição que nunca existiu. Espera. Talvez seja melhor mesmo sem despedidas – não gosto delas! Só ficam bem nos filmes, com a capa fria que o ecrã ou o projector nos permite.
Não! Não quero despedidas. Já decidi. Tenho essa opção, não tenho?
Dura esta ideia de que te encontro, amanhã, no sítio do costume. Primeiro, começo por não poder te visitar. Depois és tu, depois nenhum e depois esquecemo-nos… pelo menos até aos aniversários e aos natais. Posteriormente, até podemos nos esquecer de alguns deles. Rasgas as páginas do teu calendário e eu da agenda.
Ficam o tudo e o nada ditos. Prefiro assim. Sempre preferi as entrelinhas – irrita-me a evidência do óbvio. Mas isso já sou eu com as minhas complicações.

Vai embora, que eu finjo que não percebo.
Podes ir… “Nice to know you. Pleased to meet you” como na canção.
Adeus. Beijos.”, como diz a outra.

E não é sempre assim?

Desencontro-te amanhã








Vejo-te ao longe, tal como me vês.
Os olhares de outrora dão lugar a acenos de constrangimento.

A fiandeira reserva-me outros alinhamentos.

24.5.06

Quando têm a mania que nos conhecem muito bem, mas na realidade não têm é perspicácia suficiente para distinguir que estamos, mesmo, só a brincar!

- Estás mal disposto? Ah... Deve ser olhado... Não notaste ninguém a olhar para ti?
- Er... Nada fora do normal! Eu estou habituado a que olhem para mim!
(risos meus!; Silêncio e revirar de olhos do outro lado)


"Auto-estima é contigo!" - Conhecem-me tão bem! Lol

17.5.06

Laranja ou novelos?

Corto a laranja, em duas partes. Olho.

Nelas, um vestido de noiva estendido a secar sobre telhados. A menina-pássaro flamejante dos meus livros aos quadradinhos. Dois amantes, separados, algures num mundo em forma e tamanho de ervilha. Quatro sorrisos de encantamento, juntos ao par. A personagem agridoce que se banha ao sol e mordisca flores secas, ao luar. O relógio no pulso de joaninha que não voa. As ilhas sem ponte. As estruturas brancas sobre fundo aguarelado. Pequenos vulcões com espuma de mar. Dois novelos sussurrando histórias ao entardecer.

Saudades mortas

Então, olá! Já tinha saudades tuas!
Não me lembrava desses traços na tua cara… tão pouco de como falas compulsivamente e sem parar. Esse som melado, também já me tinha esquecido dele.
Essa tua forma de combinar os truísmos com o riso, temperado de júbilo até me fez rir, por instantes. Pois… ainda não sabes tudo. Não foi desta!
A nossa sombra de outrora… também sentia falta dela, mas a sua frieza intimidou-me. Trouxe ao de cima uma timidez que julguei perdida há muito. Já não a conheço (à sombra!). Seu cabelo ainda dança ao vento, mas as valsas são outras. Adeus sombrinha.

De repente, vi o de outrora e depois, o de sempre.
I do not miss you, anymore!
Até à próxima! Estranhamente conto com ela, como com o sol que amanhã se espreguiçará no lençol azul do céu.

6.5.06

Dream a little dream


Olhou o relógio. Há 7 dias atrás, perguntava-se se te encontraria, por aqui. Se teriam mais uma dessas conversas improváveis. Pensou que sim! Planeava vestir o uniforme do verde que tu gostas.
Ficou, o dia, a pensar. Pensou-te no meio dessa, estranha mas envolvente, multidão. Sonhou-te a sussurrar “vamos embora daqui”.

Não te viu! Lembrar-te-ias?
Hoje, tantos dias passados, sorri – “Até à próxima, que é, já, daqui a pouco.”

5

Cantas cada uma dessas tuas canções emprestadas.
Sabes o nome deles de cor – os minutos de cada uma das horas.
Conheces os sinais do seu corpo, de quando, ainda, por eles passavas as mãos.
Saboreias cada pedaço de sal do que, cheio de vontade, levas à boca.

Não soubeste por que nome lhe chamar, nesse dia.
O agora é sempre!

4

Doce mercúrio beija o chão, ao lado dos vidros que deixaste cair. Não os juntes! Gosto mais deles assim… Desenham o percurso de outrora; de quando fazias padrões com os pés sobre a tijoleira, pintando a vermelho.

Gosto mais do chão, assim… sem tanta ordem ou perfeição!

3

Hoje, acordaste e esqueceste.
A bem ver, nem chegaste a adormecer. A noite tinha passado e tu só olhavas os seus cabelos sobre o pescoço tocado pelo sol – sempre tocado pelo sol! Nem é que procures o seu toque… Acabas por encontra-lo; ou melhor, ele a ti!

Acordaste e fechaste-o – ao corpo. Voltaste para a roupa que tinhas deixado no chão. São horas!
Esquece.

2

Comparou o mundo a uma ervilha. Uma pequena ervilha, numa qualquer vagem soprada pelo vento.

Por pequenina que fosse, como a princesa do conto que a sentia mesmo sob os 77 colchões e colchas, conseguiu surpreender e recontar as histórias que eu havia segredado.
Tão cíclicas! Tão facilmente adulteradas.

Este contador está cansado das ditas coincidências.

Procura-se nova ervilha! Até pode ser cor-de-rosa como a do blog!

1

Sento-me, à espera de mais uma das tuas histórias. Tens uma para cada dia que passa – pelo menos uma!
Sento-me para ouvir. Não que goste delas – não penses! Já se tornaram um hábito.
Gostava de saber é se as inventas, qual contador ou Sherazade! Também tinhas umas para te contar… Ficam para a próxima!

4.5.06

Mapas

Olhas para o relógio e vês o ponteiro dos minutos mudar para os 11. Sobrepõe-se ao das horas.
Tiras os alfinetes que te tapam as cicatrizes e atira-los para o chão.
Antes de adormeceres, lambes a pele, tentando apagar pegadas.

Ainda, consegues seguir alguns desses mapas que te traçaram no corpo... Não te invejo!

3.5.06

A conversa mais improvável

- Olá! Ao tempo que não te via!
- Mas… lembras-te de mim?
- Claro! Claro que sim! Estavas ali… ali à frente… Saltavas muito. Rias. Cantavas. Já te tinha visto, uma vez, antes. Estavas no mesmo sítio, julgo eu… Usavas o meu verde e também saltavas… usaste sempre esse verde! O teu verde que se fez meu.

I’ll see you in another life”… quando aprendermos a miar. Quando tivermos a telha como cama e o zinco como sofá.

Talvez fale contigo... amanhã!


Três anos passados desde a última vez que o disse. Três anos passados e muitas conversas depois… mas não nossas! Não! Nós já não usamos palavras; não entre nós, isto é.
Não!
Não foi o assunto que se esgotou, foi o peso do que não ficou dito.
Sabes… pesam-nos as entrelinhas. E quem diria que pudessem pesar tanto?

Em tempos pensei que eras um desses virús que não se cura… Sabes? Aqueles que são trocados entre lábios de amantes. Mas nós nunca fomos amantes; não é mesmo?

Ainda estás aí? Sabes… é que não sei. Não falamos… mas fingimos que sim!
Fingimos haver assunto, quando me cruzas o caminho.
Tornamo-nos peritos nisso, não foi?
Tu em fingir que não o sabias e eu fingindo acreditar que sim! Tu nas maçãs verdes que me atiravas e eu nos quadros que não quis pintar… Pintaria outros e esses que me ditavas, a seu tempo!

No último café turvo que tomámos, o tempo teimou em não passar, mesmo quando soprei o ponteiro dos minutos e forcei o das horas… Como no livro que me emprestaste, não foi? Entre nós? Sempre, sempre as horas! Não tuas, mas minhas!
Em algumas delas pensei, em carmim, em falar contigo “amanhã”, sempre amanhã porque tornaria tudo mais fácil.

Agora jazem os tempos mortos de outrora e as máscaras que insististe em colocar.

Entre nós, sempre as entrelinhas e sempre o amanhã.

Um dia destes, falamos! Não tem é de ser, já, no amanhã.

2.5.06

Entre duas canções

Conta-me histórias... mas sem mais contos de embalar!

O ninho ou o melhor sítio do mundo

A propósito de alguém que escrevia sobre sua metade de laranja e um abraço oferecido e aconchegado - “o melhor sítio do mundo".

Dei comigo a olhar-vos com outros olhos; com certeza, pedi-os emprestados a alguém, visto que era um olhar tão diferente de todos os que vos tinha dado.
Olhei-os sem os ver ou vi-os pela primeira vez?
Ternurentos. Doces. Amantes. Ou estará no meu olhar?

São felizes, vocês? Parecem-me!

19.4.06

Quando


Quando os novelos crescerem tanto que beberão a água dos oceanos e os gatos atravessarem o espaço deixado, transportando brincos de princesas para enfeitar teias de aranha, eu ficarei, aqui, olhando as pegadas e semeando silêncios.

Sal na boca e água nas mãos




Nunca tinha visto o mar, apesar de viver numa ilha. Sabia que aqueles altos e montes eram rodeados por um líquido azul, habitado por criaturas de armadura prateada, onde iam desaguar as lágrimas dos desgarrados e esquecidos.

Por muito tempo hesitou em seguir aquela água que tilintava até depois dos vales. Uns dias, seguia-a até ouvir estranhas gentes com falares diferentes do seu, mas acabava, sempre, por voltar ao seu habitáculo…seguro, familiar, conhecido.

Num entardecer, porém, uma dessas criaturas de sítios distantes e pele beijada pelo sol atravessou-lhe o caminho. Olharam-se e reconheceram-se apesar de nunca se terem visto até aí.
A noite caía e com ela o orvalho – seria assim o mar? Fresco…chegando sem darmos por isso e só reparando nele quando as gotas nos beijavam a pele? Quando já era tarde. As palavras trocadas durariam aquela noite apenas. Não mais. A criatura pelo sol tocada perguntou-lhe o que queria porque pouco podia oferecer.

- O mar. Apenas o mar… - disse-lhe

- E o mar terás! – respondeu-lhe.

Na manhã que se seguiria, trouxeram-lhe o sal na boca e água nas mãos.

Seguiu-se um adeus.
Não se voltariam a ver. Não voltaria a provar sal daquela boca ou sentir água daquelas mãos. Não… mas os beijos trocados traçariam o mapa até à praia, onde ficou de olhos postos no horizonte até ao fim dos tempos, esperando.

27.2.06

Porque os novelos também contam histórias


"Ninguém sabe onde e quando começa uma história, ou melhor, uma história tem muitos afluentes: há o dia em que P.J. Harvey encontra uma capela dedicada a Santa Catarina no alto de um monte; há a canção de Björk a fornecer a metáfora do novelo; há José Barrias a lembrar que “este romance nunca existiu”; há a multifacetada figura de Santa Catarina de Alexandria ao fundo, no início do novelo. Conta-se que era uma mulher bela, de nobre linhagem, sábia, que decidiu dedicar-se inteiramente à religião cristã. Foi capaz de bater em torneio filosófico cinquenta doutores de Alexandria e convertê-los, repudiou o imperador Maximiano em nome do seu compromisso com a fé, e escapou ao martírio da roda, a que este a condenara. Foi depois decapitada mas, também na morte, continuaram os prodígios: das suas feridas brotou leite em vez de sangue e os anjos levaram o corpo e a cabeça para o Monte Sinai. Trata-se de uma santa que durante séculos gerou acesas devoções, tida por poderosa intercessora junto a Cristo, e nessa qualidade invocada tanto pelas donzelas casadoiras, como pelos teólogos, filósofos e estudantes, ou pelos diversos ofícios que se serviam da roda: oleiros, carroceiros, moleiros, etc.. Se a veracidade histórica desta mártir acabou por ser posta em causa pela Igreja, que a retirou em 9/5/1969 do calendário litúrgico oficial, continuam bem palpáveis, no entanto, os vestígios da fé nela depositada ao longo do tempo.
É esta permanência das efabulações antigas que Pedro Berenguer recolhe para tecer inesperados laços com as bem actuais ficções da mulher/manequim. Tudo isto, no seu trabalho, é matéria-prima para uma prática da pintura enquanto narrativa, que ele constrói quer pela figuração fragmentada em vários painéis, quer pela incorporação de textos, mapas e percursos, quer pela propositada técnica de acumulação de papéis e de camadas de tinta transparentes, que vão adensando a superfície pictórica e criando mistério, nas suas sucessivas ocultações. As histórias e as imagens alheias de que se apropria misturam-se com as suas indestrincavelmente, tal como acontece com os materiais e as técnicas que usa, entrecruzando colagens, transferência e pintura.
De uma narrativa se diz que se desenrola, mas ninguém sabe quando, e onde, e como, acaba uma história, pois a qualquer momento ela pode ser reactivada."

Isabel Santa Clara
Maio de 2004

Para estrear o blog e porque a citada compreendeu o título melhor do que ninguém (da Exposição e, presentemente, do blog)... e, também, porque fiquei todo babado por este texto ter sido escrito de propósito para mim!!