31.12.07

O Castigo é mais doce que a Confissão


2007. Chapéu da Esperança. Espaço Diário de Notícias - Galerias São Lourenço. Funchal

Luscious Life

"(...)
Hold time no need for the moment of the day
I celebrate i need i need today

Was wondering of the day
To celebrate
To let it be
To feel so free
When you and me in a sweet luscious life"


PS: Can't stop listening it! (Patrick Watson) Ah... e Happy New Year!

25.12.07

A Consoada da Tia Solteira




Naquela noite, pôs os rolos no cabelo, leu todos os postais e revistas cor-de-rosa que encontrou, comeu todas as broas e chocolates que tinha, quase encomendou um daqueles aspiradores a vapor dos anúncios, viu todas as novelas da televisão e acreditou em todas as astrólogas que lhe prometiam saúde e amor para o ano que se avizinhava.
in Pintura NA TAL Ilha. Casa da Cultura de Câmara de Lobos. Dezembro de 2007 a Janeiro de 2008

4.10.07

Já dizia o Pin

"You say I'm a bitch like it's a bad thing"

Note to self

Não mostres que és inteligente!

3.10.07

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

Só porque apeteceu!

4.9.07

I Might be wrong

Surpresa? Ou então não!

3.9.07

1/4 de século

21.8.07

Evening

- Where’s Harris?
- Mom? Who’s Harris, mom?
- Harris was my first mistake.
- Do you remember your first mistake?
- You were dreaming. That’s all.
- Your First mistake is like your first kiss. You never forget it.
[…]

- There’s no such thing as a mistake. You get nervous, but you sing anyway. I’m just gonna sleep for a moment now.



(MINOT,Susan. CUNNINGHAM, Michael. 2007. Evening - Screenplay. USA:Hart-Sharp Entertainment)

9.8.07

"In Repeat", in repeat

"Can you wait there for so long
Can you be there if I fall
Can you fall and stay strong
Can you dry your eyes and laugh
Can you show me your heart once more
Can you breath a new life now
Can I freeze this moment with you
Can my hand fix your heart and you
Did you ever touch the ground

Can we sing `out of time` in repeat, and look both of us underneath
or forget and reset
Cause the beat will change your life, and the sweat will turn you on, and your veins will shine outside."

(The Gift. In Repeat, 2007)
Can't stop listening!

6.8.07

Posso ter férias das "férias"?

4.8.07

Explodir


Hoje apetecia.
... e ficar a ver as palavras soltas assentarem.

3.8.07

Desafio da página 161

"Cada uma delas adora com especial veemência a autoconfiança desembaraçada e afável de Julia, os dias ilimitados que tem pela frente."


(CUNNINGHAM, Michael (2003). As Horas. Lisboa:Gradiva)

Eis as regras do desafio:
1. Pegar no livro mais próximo
2. Abri-lo na página 161
3. Procurar a 5ª frase completa
4. Colocar a frase no blog
5. Não vale procurar o melhor livro que têm, usem o mais próximo
6. Passar o desafio a cinco pessoas.
(Tks, lunejaune. Apropriei-me.)

7. Ao "leitor"/comentador, mais ou menos fiel, mais ou menos ocasional (esta fui eu que acrescentei!) - que faça o mesmo.

1.8.07

Que um dia a história ---




Cansado dos sorrisos ensaiados e do artifício pensado das gentes que, ali, passeavam a roupa de ocasião empunhando os seus copos de espumante colorido com essas bagas silvestres congeladas que já poveiam os supermercados, reagrupou toscamente os pedaços de janela sobre as incisões da pedra.
Os olhos de porcelana a se despedir do ontem, como decidira, e os indícios do consumo, aqui e ali. O contador, nos grãos das vagens – ou era ao contrário? Os novelos cercariam-nas, entretanto, a jeito de forte medieval improvisado, quais leucócitos – assim ficamos imunes, certo?

A resposta contida

- Oh… está tão bonito, hoje...
- Isso é porque não me vê nos outros dias! ;)

2.7.07

Até já

And if you feel a little left behind
I will see you on the other side
(Okereke, Kele. Banquet. Silent Alarm)

Somewhere else




Colhidos os silêncios, partiu em busca das horas ruidosas da pequena grande cidade.

29.6.07

Para ilustrar o quê?


Não. Esta não é umas dessas flores de papel. Nem mesmo das que povoam geometrias decalcadas.
É uma das outras.(nunca são as preferidas de ninguém por isso resolvi fazê-las as minhas. Sim, essas... les autres.)

Daquelas… amputadas de suas raízes e postas ao ver.
Já não acordo cedo para encontrar por acaso – novas horas mortas e o sono que já não se tem. (é a isto que chamam o cansaço? Ou será que está tudo ao contrário, como naquela canção?)
O chocolate provado mas deixado por acabar de comer. Os chocolates comem-se?
Uma imagem desfragmentada da tabacaria de um outro Pessoa.
Foi para um trabalho… sim! Agora lembro-me, de entre as caixas de lãs encontrei-o.
A crueza das outras imagens encadeadas. A expectância. Não gostei!
Talvez pela fronteira a giz vermelho que desenhei e que a chuva tende a lavar. Não gostas de chuva? I do… Temos pena. Ainda assim trai-nos sempre, não é?
A festa de gentes desconhecidas e emprestadas por outrem.
A música, ao fundo, repetitiva e o silêncio - sim!
O silêncio ensurdecedor das ilhas.


Novelo Branco à sombra. Pele molhada no calhau.

With us? It's never off the table...

20.6.07

18

Após um ano de (muito) trabalho. Sequinho e sem direito a casa decimal.

4.6.07

Edit me



No silêncio das ilhas, descolorei toda a pele a fim de a oferecer a jeito de mensagem subliminar no formato de livro de colorir. Quanto ao umbigo… tenho de pensar no caso!
A expectância dos cheiros que desaparecem é ensurdecedora e desconcentra-me o trabalho.

3.6.07

Tangerine

Still got your taste in my mouth.

29.5.07

Pete's Anatomy

“Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o que quer (…)”
(Caetano Veloso)

Um estágio diferente da série televisiva que lhe dá nome. Semana das Expressões. Caniço. Esboço. Pintura. Segredo. Caixa. Pincel. Plástico aderente. Mimos ou brincos de princesa. Tinta. Rosa Carne. Pedaços de ti. Anatomia de um coração emprestado. Ilustração Científica. Missanga. Transparente. O que está, mas não se vê. Caixa. Riscas. A ganga que já era pintada, antes da pintura. I am not an acrobat, I cannot perform these tricks for you, no iPod. As conversas que finjo não pescar e a minha resposta torta. Fim de mais um dia de trabalho.

25.5.07

Surprise Goodbye Party



10 Horas. Toque da campainha. Chave que “não precisa” aparecer. Porta da sala aparentemente fechada. A turma toda sentada. Salva de palmas. Professores “ditos estagiários” surpreendidos. Surpresa continua. Sorrisos q.b. Assobios. Palmas continuam. Mensagens no quadro. Lanche nas nossas mesas. Fotografias. Obrigado e um até já.

23.5.07

Habitar


No apartamento emprestado, vazio de outras gentes, um abraço provocado pela vontade de tocar ou pela sofreguidão da carne que se quis (in?)oportuna, encheu esse teu dito espaço protegido com paredes caiadas a vermelho de casas antigas. É a pele das casas que se quiseram em extinção e os bebés que se queriam até acidentais.

Habitar, a jeito do negro corvo que colecta brilhos no ninho.


De dia, actualizaria esses jornais públicos semeados de nossas mensagens subliminares e à noite comeria tangerina, sofregamente, e com a ajuda das mãos.

Deixaria a promessa de acordar mais cedo para te encontrar, por acaso, oh concha. Começaria a ensaiar o mais fake-surpreso sorriso de sempre.

22.5.07

Café




Sábado. Café. Riso atrapalhado. Toque nas pernas. Colegas esquecidas. O barulho do mar. O carro trancado. Mais risos, agora menos atrapalhados. Parte de alguma coisa, numa cor qualquer. A tensão. Mais toque. A viagem. Um túnel. Outro túnel… seria outro? Perco-me. Encontro-me(-te?) na casa. Sofá. Roupa. A televisão que ilumina, mas não se vê. Mais tensão. Lábios. O jogo do "não fui eu, foste tu". Mais roupa, menos roupa (sem roupa?). Os beijos que se evitam e os que não. O relógio (faz-se tarde!). A chegada de familiares. Um até já – para mais uma ida “ao café”?

Note to Self

Nunca diga dessa tangerina não comerei!
(yet again)

8.4.07

A Espera

Ao se desenhar mais uma fronteira, com a manhã fria e incandescente como o sol a bater na neve, fechavam-se olhos e adormeciam-se mãos.

A tarde, lenta e morna, com o seu vagaroso compasso de horas e minutos, cheia de nadas, estender-se-ia até ao toque do telemóvel.

6.4.07

Desejo II



Esta noite, os sonhos tidos foram a dormir, descontrolados e sem rédeas – não entravas em nenhum deles. Esta noite não houve tempo para mantas ou pernas febris – ficaram presos ao ontem. Esta noite, sem cerveja, vinho ou cafés, não houve tempo para dedos entrelaçados ou espasmos corporais – os ais são só meus?

Noite houve, atrás de uma janela por onde se olha para dentro e nunca para fora, em que carne nunca pareceu, tanto, carne - sem, no entanto, ser, sequer, consumida com sofreguidão.
Fronteiras de carne e músculo, aprisionam uma força bruta de ser, querer e vencer.

E hoje? Hoje, chove-lhe no tecto da boca, das nuvens que alberga na língua – do que não deu. Hoje, espera carta enviada mesmo que tardiamente – o selo é excusado. Hoje, espera-te no sítio do costume – ou, mesmo, noutro qualquer – para que com um sorriso, um outro arrebatas.

“Podias ser a última boneca russa… e eu deixava-te usar a coroa”, pensa alto essa estrela moribunda.


Hoje, borda um coração cor de sangue numa tela branca – armadura para coração ou coração elevado a jóia?

Desejo


"Laura observa. A casa de jantar parece-lhe, neste momento, a mais perfeita sala de jantar que se possa imaginar, com as suas paredes de cor verde-amarelada e a arca de bordo escura que guarda um tesouro de objectos de prata, presentes de casamento. A sala parece-lhe quase impossivelmente cheia: cheia com as vidas do seu marido e do seu filho, cheia com o futuro. Tem importância. Brilha. Grande parte do mundo, países inteiros, foram dizimados, mas uma força que dá inequivocamente uma sensação de bondade prevaleceu; parece-lhe que até Kitty será curada pela ciência médica. Ela curar-se-á. E, se não se curar, se já não for possível ajudá-la, Dan, Laura e o filho de ambos, e a promessa do segundo filho, continuarão aqui, nesta sala, onde um rapazinho franze a testa, concentrado na tarefa de tirar as velas do bolo, e onde o seu pai aproxima uma delas da sua boca e o convida a lamber a cobertura do doce.

Laura lê o momento enquanto ele passa. Aqui está, pensa; já lá vai. A página está prestes a ser virada.

Sorri ao filho, serenamente, de longe. Ele retribui-lhe o sorriso. Depois lambe a ponta de uma vela apagada e pensa noutro desejo, que pede seja satisfeito."
Cunningham, Michael.(2003) As Horas. Lisboa: Gradiva Editora. P.203

5.4.07

Rosa-Carne


Na véspera de sexta-feira santa, tricotava-te esse coração de pedras e contas vermelhas em linho branco, na ressaca do vinho que bebemos. O quadro sob a tela sentia o esticar da pele, de cada vez que a agulha a perfurava, de tal forma que o pequeno grande músculo ficaria dorido. Ali, o calor excessivo do quarto fazia lembrar as horas em que a temperatura em baixo dos lençois incomodava os corpos.
No resto da casa um cheiro a ervilhas empestava o ar, enchendo o vazio do jejuar dos poucos crentes que por ali habitavam.

Recordaria, a tempo, que não acreditava em restrições morais, nem celebrava dias santos e na sexta-feira comeria carne (deliciando-se), esperando que também o fizesses.

1.3.07

Entre a tua canção e a minha II


Conta-me histórias… mas sem mais contos de embalar.

Currículo Oculto

- Tivemos a melhor de todas as educações – na verdade, íamos à escola todos os dias…
- Eu também vou todos os dias à escola – disse Alice – não é razão para estares assim tão orgulhosa.
- Com os extras? – perguntou a Tartaruga Fingida, um pouco ansiosa.
- Sim – disse Alice – aprendemos Francês e Música.
- Eu nunca tive posses para os extras – disse a Tartaruga Fingida, dando um suspiro -, eu só estudava as disciplinas obrigatórias.
- Quais eram? – perguntou Alice.
- Para começar mergulhar e nadar, claro! – Respondeu a Tartaruga Fingida -; a seguir, os diferentes ramos da Aritmética: Ambição, Distracção, Derrisão e Repressão.

Lewis Carrol
Alice no País das Maravilhas
Também tens um?

16.2.07

Clones?

S h o o t t h e m a l l !

3.2.07

Não digas nada

"Não, não digas nada.
Supor o que dirá a tua boca velada
é ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor que o dirias
O que és não vem à flor das frases nem dos dias
És melhor que tu
Não digas nada, sê!
Graça do corpo nú que
invisível se vê"
Mário Cesariny (adaptado)


PS: para ouvi-lo, aconselho Margarida Pinto! ;)

Falta

Falta-me o tempo, sempre o tempo!

17.1.07

Hoje

“Words are very unnecessary”
(Depeche Mode)


Hoje, apenas hoje, façamos de conta que isto é, mesmo, real. Vamos ignorar este cerco de muralhas de água altas – demasiado altas! Não, isto não é um rochedo aqui plantado.

Hoje, só hoje, vamos fazer de conta que realmente nos importamos e que há, mais lá fora, do que apenas isto. Faz de conta que os cavalos já não choram e ri como se, realmente, o sentisses.
Caso contrário, pede ao teu corpo para falar mais baixo, para não o sentir tão ensurdecedor. Já tenho tangerina nas mãos e não estou para parti-la! Até porque ainda ontem comia maçãs, em chão de casa emprestada.
Esta carcaça de falsa morada, um dia, colapsa sob o peso desse corpo morto com que teimas em passear. Já te expliquei que estes nossos diálogos a surdina não levam a sítio algum – estamos, aqui, parados à esquerda do meio há três centenas e meia de dias. Perdi a pachorra para te contar no calendário e os relógios que uso são só ornamento – pensei que subesses.
Hoje apenas hoje, fica aqui, sem falar. Ou então faz-te a esse avião de papel e segue, logo, um outro rumo.

12.1.07

Nem com maçãs te apago II


Forras o teu interior a pele de raineta, na esperança de que, dentro dessa casa de cor rosada, consigas albergar esse meio sol em crescimento. E enquanto o forras, para não teres de soprar tanto os ponteiros do relógio, supões as cartas por receber – haverão mais, certo? Colchões, almofadas e edredões, pouco te irão ocupar e acordas antes do despertador.
Unes com fio de estendal o anteontem, o hoje e o amanhã de forma a te atares ao chão e a não esqueceres caminhos mal trilhados - seguindo o exemplo dos gémeos da casa de chocolate. Migalhas de pão alimentarão pássaros e tu sabe-lo melhor!
Acumulas maçãs quentes como malaguetas num canto do habitáculo, como se uma toca abastecesses e pisas, sem meias ou sapatos, esse soalho emadeirado. Apagarão a outra metade de sol que tens em ti, pensas.
Não receias, no entanto, intempéries invernosas, até porque sabes que aguentarias um nevão sem pestanejar. Delicias-te com a tua desfaçatez e essas letras por descobrir.

Amanhã


Quando os relógios pesam tanto como maquinarias antigas, ensopam-se novelos em banhos de sépia a fim de os mudar de cor. Tempos houve, em que os mesmos circundavam paisagens e mundos esféricos de matiz adocicada e voltavam a tempo de tomar chá.
Mas com o pesar dos relógios e dos dias, que teimam em apressadamente passar, ensaiam-se conversas de ocasião, ocas de sentido e pesadas de constrangimento. Diz-se aquilo em que não se parece acreditar, para em jeito de cartada final, o desdizer.
Oferecem-se convites com mão recolhida e finge-se não perceber as meias verdades suspensas no ar como se de bolas de sabão se tratassem.
Ao fim do dia, reclama-se a jeito de egoísmo infantil as faltas e ausências do agora, sonhando com um ontem ficcionado.
Amanhã? Amanhã nascerão bebés enquanto outros são feitos, correr-se-ão maratonas a passo de caracol, travaremos diálogos sem escassez de pormenores, comer-se-ão (sofregamente) laranjas inteiras abertas com mão emprestada, cantar-se-á bem alto na pauta mais desafinada que houver, dançaremos electricamente com quem estiver ao lado, sentiremos borboletas ou outro insecto qualquer a bater asas na barriga (ou não!). Amanhã? Amanhã apanharemos autocarros e aviões para destinos mais certos, acompanharemos em directo mais uma execução, fiaremos novas teias de enfeite, faremos piadas mordazes e corrosivas só para quem puder entender, reabasteceremos corpos de beijos e beberemos vodka da garrafa com o gelo e o sumo à parte.
Amanhã? Pedirás a cartola emprestada ao Chapeleiro Maluco da Alice, porque te faltou uma tiara, ainda que não o vestido. Amanhã? Amanhã reclamarás, novamente a minha ausência e engolirás sorrisos tão descartáveis como cartão, brindando com o champanhe que derramas
.

Santas, Princesas e Ervilhas





Pedro Berenguer conta histórias no silêncio – espaço onde coabitam os corpos, os sonhos e os dias. As suas pinturas são territórios para as donzelas (de hoje, mulheres/manequins ou corpos, ou de ontem, figuras históricas ou santas, ou apenas mulheres com nome de baptismo) inventarem a cidade, a casa, o quarto, a janela, a carta… ou o olhar de alcatrão que penetra o espectador e baralha o seu mundo. São histórias. Era uma vez está ausente ou não se lê, sente-se. O fim, the End, é o devir de uma nova narrativa, de um corpo que habita a casa ou morre na concha de uma mão inventada. As palavras escritas (por linhas tortas, como as vontades dos anjos) procuram a bússola dos dicionários, dos livros, das revistas ou do ponteiro do relógio (e da hora apagada).
Vejo nestas pinturas (e no seu desenho) a ideia de alfândega – onde tudo é despachado, até os corpos, mortos (também podem ser moribundos porque os homens não separam a vida de pré-morte); até as palavras, inteiras (também podem ser fragmentadas porque os homens há muito que abandonaram a casa); até as cores, quentes (também podem ser frias porque os homens perderam o sentido do norte e do sul); até as cartas, escritas (também podem ser apenas páginas brancas porque os homens adormeceram).
Leio nesta pintura a ressaca de palavras baralhadas com sentido de ocultar/desocultar o eu (teu, meu ou dos outros) de um actor sem palco, sem texto, sem estreia marcada, mas com a coreografia desenhada num útero candidato a sonho.
Pedro Berenguer escreve histórias no silêncio – espaço onde os amores gelam nas ruas sem número de polícia. As suas pinturas revelam as bocas cadentes que estorvam os prazeres da epiderme e as paisagens (aqui corpóreas) são revestidas pela pele do corpo (e dos corpos) e da palavra (das palavras).
Rita Rodrigues
Dezembro de 2004

Last Christmas











No Natal passado, abstraímo-nos dos objectos e elevámos as suas abstracções à potência máxima, suspendendo-os, no intermédio de tectos, e com a sua ausência de peso, ao passeio atrevido e jocoso do ar.
No sub-solo semeámos estrelas e sentámo-nos a ver o silêncio assentar, enquanto à sombra falávamos.

1.1.07

The Time of the Turning

It's the time of turning and there's something stirring outside
It's the time of turning and the old world's falling
Nothing you can do can stop the next emerging
Time of the turning and we'd better learn to say our goodbyes
canta-me a Alison Goldfrapp, neste primeiro dia do ano, ao ouvido, e eu não consigo deixar de lhe dar razão.

25.12.06

Espírito Natalício

In this festive season, Mary Christmas and Santa Claus are getting, each other, a divorce.

20.12.06

Coleccionador de areias




Wake up we're almost there,
just ten more miles it was such an affair,
that in all our lives we've waited for this day.
And there it is,
it's shining like gold and little different than the one before
and who would've though that you would contemplate.

(Josh Rouse, in Under Cold Blue Stars)

Quando a areia assenta, não há tempo para falsas tartarugas a discutir aritmética com Alice ou para pérolas atrevidas a se esconderem por entre as pregas da pele, por baixo da carne. Cantam-se canções quase desconhecidas para ninguém ouvir e ecoa-se de volta. Canto eu e cantas tu. Não nos ouvimos.
Tenho nos pés uma quantidade de grãos de açúcar mascavado. Pesam-me. Penso nas crianças que, aqui, correram quando o calor se sentia e no deleite dos coleccionadores de imensidões numa praia como esta. Colocariam uma pequena porção, decerto, em frasco não muito espelhado de forma a não turvar a vista, nem tão pouco muito exposto aos beijos atrevidos da luz que a gastariam. Não sei o que escreveriam na sua etiqueta com suas canetas de pena, compradas para a ocasião – esse ritual de a colocar.
Um grande “P” (sim, um pê!), flutua, no amarelo empardecido do oceano, ao jeito de calhau esquecido ou de mensagem não bebida e esquecida em garrafa por ler e tu ficas a olhar o tom rosado de um sol cansado e um céu que não se põe. A letra toca as fronteiras não desenhadas de figuras geométricas traçando rotas que não ficarão por seguir – certamente! Far-me-ei a elas em barco de papel.

Em prateleiras alheias e coleccionadas de praias, encontram-se continentes e durante a eternidade, dunas engarrafadas fitam-se como amantes impossibilitados de tocar por esse composto transparante, por eles formado.
Continuo nas minhas cantorias, adormecendo o menino do coro que há em mim.

Volto a colar-te frases soltas no tecto da língua, semeando-me.
Lê-me as entrelinhas, onde os icebergs derretem, enquanto pensares em postais de natal. Lê-me entrelinhas desenhadas em areia abafada pelo mar, durante três dias consecutivos e prometo que fico aqui.

This is not a story or a fable

Em terras menos longínquas, a incompetência e geografia de seus próprios limites tenta ser abafada por (excesso de) trabalho (para os outros!).

19.12.06

Os dias voam-me e o trabalho não avança!

15.11.06

Swallow's Ceremony


“(…)
Oh I'll break them down, no mercy shown
Heaven knows, it's got to be this time,
Avenues all lined with trees,
Picture me and then you start watching,
Watching forever, forever,
Watching love grow, forever,
Letting me know, forever.”
Ceremony, New Order, 1987

Num dia pardacento de Novembro, e com algum atraso, aterrou ao jeito de andorinha corajosa, não temendo intempéries invernosas na rudeza do calhau. O voo picado não cansara e com sua malha riscada e casaco de abafo mais quente, quais armaduras prateadas, fez-se ao céu menos azul e, em tom de desafio, entoou esse seu macio (ainda que inaudível para a maioria) canto.
Sem ninho ou mantimento de reserva rodopiou tendo consigo, somente, um sorriso maroto, mas envergonhado, e aquela estranha confiança a quem as coisas correm, repetidamente, bem. Como não acreditava em deuses da maioria ou, mesmo, aos esquecidos pagãos, fez ninho em menos de seis dias e não descansou no sétimo. Em vez disso, lá faz uns descansos ocasionais entre piruetas e voos contra-picados e adapta-se, SEMPRE, à corrente.
Passam ciclos e luas, ventos e chuvadas, beijos e beliscões. Passam caracois e tartarugas por todo o lado, e, também, ninhos por riachos e tutinegras pelo ar.


Quanto ao menino que, um dia, chorou desalmadamente por uma dessas aves da Primavera, morta entre o vento molhado e o pára brisas, cresceu, seguiu o conselho dado e esperou, ali, no virar da esquina onde a andorinha sorri para si.


Por fim, correm-se jardins, saltam-se festas e trocam-se beijos na madrugada. Ri-se bem alto e não se olha em volta.

13.11.06

Catarina II


Catarina lembrava-se de escolher aquela liga acetinada de cor branca, mal a vira na loja, numa tarde quente e ventosa. Mas isso de pouco interessava, hoje. Ria muito nervosa, como não havia gargalhado sequer , no escuro, nessa "primeira vez", como lhe chamavam.
Essa noite, em que o chão de madeira fora menos frio que a chuva que caía. Ao contrário, das suas amigas estava farta de esperas que não lhe faziam qualquer sentido. Nesse dia decidira que a pressa não seria inimiga da perfeição. O tempo passara e as noites como aquela repetiriam-se.
Agora, seis anos volvidos, deliciava-se com aquele medo adolescente de ser tocada, qual virgem envergonhada. Antes de sair do trabalho, chamou, histericamente, a colega Maria, que acabava de ser deixada, por um carro preto, na berma da estrada. Maria, uma mulher de quarenta e dois anos, mas que se vestia como se tivesse menos vinte, fitou-a com o sorriso frio que dava aos homens casados com quem tomava cafés depois do almoço.
Aquele mexer de lábios gélido parecia deitar ao chão todos esses sonhos vãos, afinal ela era uma das que “se usa sem agitar e sem fingir ternura”. Tirou a liga, no meio da rua e atirou-a para os arbustos repetindo baixinho, para si mesma em jeito de lenga-lenga, treze vezes “as putas não amam!”

Aconchego

Não é que os tectos de casas emprestadas ou castelos andantes lhe soubessem a pouco, porque sempre os sorvera com especial vontade, mas em dias vagarosos e indispostos, apetecia-lhe, muito mais, o conforto daquela concha de caracol, não alheia.

Da-da

Passara a manhã a pendurar palavras que teimavam em não pescar, pelo que resolveu atirá-las ao ar, ao acaso, em jeito de jogo dadaísta, como fizera, naquele dia, aos pedaços de céu caídos no chão.

9.11.06

An ocean wrapped around a pineapple tree


Os barcos de papel fazem portos em covas de sorriso e descem decotes, avizinhando mãos a seguir trilhos de pegadas, enquanto se dança na relva com o dormir do sol.
Mesmo assim, corre-se até à praia, e, em tom de desafio, testam-se limites. Em planícies, dali avistadas, onduladas a pincel e tesoura, rodopia-se até cair e diz-se o que à boca vem, sem freios, deixando soar.
E porque, noutros portos, a areia é outra, experimentam-se alternativas ao atirar roupas para o chão e perdem-se apostas, já que, uma vez mais, as punições são mais doces do que as vitórias. Fica-se cheios de grãos que como açúcar incomodam o corpo e entranham-se na carne, mas sem formar pérolas, como a penetrar saias de ostras. Por fim, ri-se muito, olha-se o despertar do sol e enrolam-se oceanos inteiros em bandejas de frutos.
Depois, dias, há, em que se deixam os mesmos barcos seguir a sua corrente, sentados em sorrisos que não damos, observando novas rotas, em oceanos de cartão.

Porque, às vezes, não tenho, mesmo, pachorra!

O ar rodopia em minha volta, quais andorinhas em mudança de estação, enquanto deixo sair esses gritos, fazendo dos meus lábios, saída de emergência e todo o meu corpo, uma casa em chamas.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

30.10.06

Truísmo

Preenche o teu espaço com dias, os teus dias com silêncios semeados e os nossos silêncios com tangerinas.

22.10.06

Saudade

Das pessoas que foram e, já, não são.

18.10.06

Criança?


Todo o santo dia!
Com ou sem folha de ouro a contornar.

Frio

“O L Á”

gritou-me, pomposamente e em tom de desafio, esse o teu cheiro, quando, em casa alheia, desdobrava um edredon rosado, para enganar o frio de um Inverno que, talvez, se avizinhe. Culpa o frio, por ter pensado em ti!

13.10.06

Finge


“Finge. Esquece. Engana o desencanto.
Brinda por ti, hoje e por enquanto!”
(Xana)

Não. Aquela não seria a sexta feira 13, prevista no calendário até porque se tinha perdido o medo do escuro e dos papões não seria um mero dia no calendário a assustá-la. Andrea ergueria a cabeça da almofada, iria às aulas, vestiria a sua melhor roupa e prenderia as ondulações do cabelo em molas tão cor-de-rosa como a atitude espirituosa que se queria. Não ouviria as gargalhadas, nem mesmo os comentários jocosos e não se sentaria no sítio, à parte, como de costume (mais não fosse porque a isso tinha sido forçada!).
O dia passaria a correr e a noite, quando chegasse, seria coberta de sorrisos adocicados mas falsos como se queriam.
Amanhã é um novo dia e chegará tão rápido como este chegou e os outros tantos e cada momento que passa é uma nova chance para fingir tudo outra vez.
Finge hoje, amanhã e ontem.
Dança e brinda às coisas que nunca foram e que não são.

Little Monsters sim, mas são os meus!


“In the playground children sing their songs and skin their knees play, little monsters, play
(…)
little monsters that rule the world you don't know what you're really saying stop before someone ends up getting hurt can't you see that we're only playing”

(Charlotte Gainsbourg)

De vez em quando, quando as coisas nos fogem do controle e prevíamos o pior, é tão bom sentar-se a um canto, esperar e ver os novelos correrem e fruir a surpresa das malhas que se tricotam.
Obrigado, oh “little monsters”! E que venham mais semanas iguais a esta.

6.10.06

A Mancha Vermelha


Após tê-lo morto usando ambas as mãos, encostou-se àquela parede coberta de papel riscado de vermelho, aborrecida por ter sujo o novo vestido branco e, calmamente, mordiscou uma sumarenta maçã verde preocupada em saber se a lixívia com que lavaria o chão, estragaria a seda da vestimenta.

Finge não perceber as sementes que te mando para o ar, ocasionalmente, e colhe os ventos que se avizinham, enquanto arrumo maçãs avermelhadas em caixas de papelão.

28.9.06

Pensar em grande

Isto a ver bem, até ao fim do ano, se a história se arrastar, muita cabeça vai rolar!

27.9.06

Quando eu for rei

E ao me chamar “menino”, com aquele tom de quem por algum motivo se julga superior a mim, pela centésima vez, dei o meu olhar mais feroz, saltei-lhe em cima e depois de a ter esmurrado até ver vermelho a sujar as carpetes brancas, gritei:
“Off with her head!”

O homicídio nunca fora tão doce ali ou em lugar algum.

24.9.06

À espera


“Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos imensos esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.”

Michael Cunningham, in “As Horas”

Enquanto gatos dormirem em telhados de zinco, mais ou menos temperado, fico, aqui, a ver os novelos a rebolar e a poeira assentar.

Depois das histórias contadas, os rostos tornam-se de outros – o meu e o teu. Não sei bem se a nós deixam de pertencer, mas pelo menos às pessoas que fomos. Nessa cama fica o vazio do meu corpo e em mim a ausência do teu cheiro. Os restos de nós que já não são.

Vais por aí e eu por aqui. Escreves um novo capítulo no teu livro e eu continuo com o desenho anterior.
Naquele caderno de couro avermelhado, esboço-nos um final alternativo.
Fechas a porta. Vou esquecer que, às vezes, isto também faz doer.
Hoje finjo que não vou retroceder e digo-te adeus.


Volto à casa antiga se disseres o meu nome, baixinho. Bai-xi-nho e soletrando-o dentro da minha boca, enquanto encostas o teu corpo ao meu.
Chama-me se quiseres. Eu espero, mas fingirei não estar.
Chama-me antes que parta outra vez, para lugar onde não mais se espera o que já não volta.

21.9.06

Bonecas Russas

Naquele filme, que vira numa tarde tórrida de Verão enquanto as massas faziam praia, em que Xavier comparava o jogo do amor e da sedução às Matryoshkas, tudo parecia ter-lhe sido esclarecido. A uma boneca russa seguir-se-ia uma e uma outra, e cada uma das vezes, indagar-se-ia se era aquela a última… ou “the one” como dizem no cinema. Cada uma das vezes, tentaria abri-la... não fosse estar uma, mais pequenina e perfeita, escondida lá dentro.
Gostara daquela imagem, tanto como do beijo dourado de Klimt que o fascinava ainda como naquela primeira vez que o tinha visto num livro de Filosofia. Guardara-a como se acautelam os segredos ou lábios roubados. Fizera dela lema e truísmo, até ao dia em que o ontem lhe bateu à porta e ocupou-lhe o hoje e o amanhã. Nunca contou que uma das bonecas, deixadas para trás (pensava ele) lhe despertasse o desejo antigo de desvendar, abrir e possuir.

“I already had let you go”

Porque, por vezes, não conseguia abafar as vozes lá de dentro e porque não haviam lãs que lhe adocicassem com alinhavos a crueza do discurso, olhou em frente e disse-lhe:
- Sim bebé... é verdade! Lamento ser-te eu a dizer isto, mas não és a última Brisa aqui do sítio.

20.9.06

A Festa

I think she's the saddest girl to ever to hold a martini.

A noite caíra e trouxera as gentes de todos os sítios, com as suas gargalhadas estridentes e conversas de ocasião para aquela festa. As prendas amontoavam-se ao pé da cadeira Hepplewhite.
Juliana sorvia, golo após golo, aquele que lhe parecia ser o martini mais interminável e fitava o casal a falar. Olhou-os enquanto trocavam os sorrisos e palavras embaraçadas de quem acabara de se conhecer. Ela que usava o decotado vestido vermelho comprado uma semana antes a pensar na ocasião - o aniversário dele - e calçava sapatos às tiras. Sentiu-se mais nua do que nunca. Mais nua do que tinha estado na véspera quando lhe levara canja de galinha para curar a gripe de ambos. Mais despida do que quando correra para o mar, naquela noite, após as mensagens de telemóvel dele. Mais descoberta do que quando tomara duche aquele Domingo tardio, antes de voltar para casa.
De olhos postos nos dois, mordiscava os lábios enquanto soltava dois grandes prantos silenciosos. Apenas dois!
Àquele copo de martini seguir-se-ia outro, e outro e mais outro ainda… Até perder conta de quantos copos tinha tomado. Dançaria o resto da noite com cada um dos olhares que coleccionara, tendo-os aos dois sempre em mente. Eles que, entretanto, haviam desaparecido, por entre as caras menos e mais familiares, para o carro dele.
Adormeceria num canto qualquer a lamber as feridas que não estavam à vista, mas por baixo da carne, enquanto sonhava com corpos incandescendo ao nascer do sol.

19.9.06

The Best Friend u Can Ever Have



Antes de mais devo dizer que tenho o prazer de chamar a esta grande senhora, de AMIGA.
Não daquelas que só se lembram de nós quando fazemos anos… Não das que só telefonam para as saídas de Sábado à noite… também não das que temos o “prazer” de ver num café mensal ou quando terceiros fazem anos. Não é, tão pouco, daquelas de quem perdermos (ou perderemos contacto).
Sofia Isabel é um daqueles raros achados que já não mais se largam. É daqueles tesouros que se trazem cá dentro sempre no lado esquerdo a caminhar para o meio a pulsar e a bater. E porque tentar definir o indefinível que é esta fabulosa mulher passará sempre por eufemismos da minha parte…

"There ain't nothing no girl so sweet
Took her from heaven and gave her to me"
(PJ Harvey)

“You're already in there
I'll be wearing your tattoo
You're already in there”
(Tori Amos)

“You lye, eyes closed,
nothing left unseen could ever do us harmI
stand, so close, enough to see your dreams
in the beauty of you”
(Coldfinger)

“All my world in one grain of sand”
(Alison Goldfrapp)
PS: Parabéns Bebé! Luv Ya

15.9.06

Apagando estrelas


Porque se cansara de alojar aquele sol imenso e tinha deixado de acreditar em estrelas que não se extinguiam de tanto brilhar, viajou ao Pólo Norte num barquinho de papel e comeu icebergues até cair para o lado. Afinal se o Verão começava a chegar ao fim para os outros, para si não podia ser diferente.
Sim... até as estrelas se extinguem!

14.9.06

A viagem de Alice



Cansada de esperas e de “se’s”, Alice arrumou os novelos que ainda corriam pela casa entre as brincadeiras do gato cinzento que por ali, com ela, habitava, no baú velho que herdara da avó materna. A avó, em tempos, prevenira a neta para o destino dos que passavam os dias de olhos postos no horizonte… Mas Alice, já senhora de seu pequeno mas pontiagudo nariz fazia tranças nos cabelos de Maria Maçã, a boneca de cabelos ruivos, e ria… ria muito alto daqueles monólogos confusos. Porque passaria alguém os seus dias a fitar um mar cujo princípio e o fim nem se viam?
Agora, ao olhar para trás, Alice não se conseguia recordar de uma única vez em que a avó, uma mulher de grandes e ternos olhos azuis e pele enrugada como papel, tivesse abandonado aquela casa de tom rosado que viria a habitar.
Durante muito tempo culpara, a avó e as suas histórias, do rumo que a sua vida tinha tomado, mas deixaria de acreditar em linhas traçadas na palma da mão ou em contos de mulheres que tinham começado a vestir o preto como armadura à espera de algo que não viria.

Era aquele o momento decisivo. Aquele ali e agora. Sim… ali! Na casa com vista para o mar que albergara o sal das outras antes dela.

Nas últimas semanas havia ansiado por um bilhete para lugar nenhum, longe das pontes e das pessoas conhecidas. Ao contrário daqueles jogos que a divertiam em adolescente, em que os castigos eram sempre mais doces que a confissão, este não era, agora, o caso. Chegava de se castigar… afinal nem fizera nada de especial. Sim… chegara daquele sentimento de culpa que lhe percorria o sangue como uma doença.
Deixaria tudo para trás de forma a poder começar de novo. Olharia uma última vez para a casa à qual, jamais, voltaria. A acompanhá-la não iria sequer a velha boneca. Tomaria uma estrada diferente e nunca atravessada algures, à esquerda do meio de um mapa por traçar.
Afinal, para Alice, aquilo já era um começo.

8.9.06

Porque eu falo por enigmas (or so they say!)

- Pensei que só não percebia o que pintavas (não que não goste!). Mas também não percebo nada do que escreves no teu blog… aquilo é para alguém perceber? Nem percebo aquele título os novelos não sei quê…
- … também contam histórias! A mim contam… A ti não?

LOL Deixo desde já, aqui, humilde pedido de desculpas às minhas professoras de português – Rita, Clotilde, Fernanda, Ana, Inês: aparentemente enganei-vos!
Adaptando, então, o que me segreda, ao ouvido, Fiona Maçã (leia-se a grande senhora Apple): “I’ve been a bad bad boy!”

7.9.06

Pêssego e Açafrão

Lembrava-se de ter lido, há anos, um texto qualquer sobre cheiros e a memória, e como ambos estavam tão ligados como as unhas e a carne.
O texto, encontrado num livro esquecido no sótão, falava sobre um canguru. Este encontrava-se intrigadíssimo com um odor que lhe era familiar, nunca percebendo de onde viria. Tendo percorrido o Mundo inteiro e caído de cansaço reparou que o cheiro vinha dele mesmo, da sua bolsa.
Mais recentemente, ao visitar um blog que lhe é querido, deu com a autora (que brilhantemente escreve) a descrever o cheiro de broas quente com manteiga acabadas de sair do forno da avó.
Nesse dia, recordou um encontro envergonhado no vão de escada e a conversa improvável que se seguira.

- Olá andorinha!
- Como sabias que era eu?
- Cheirei-te quando vinhas no andar de baixo.
- Cheiraste-me? E a que cheiro eu?
- A andorinha!
- Já cheiraste uma andorinha?
- Não, mas calculo que cheirem a pêssegos frescos e a especiarias de longe, embaladas pelo vento.
- Ah… Cheiro a pêssegos frescos!
- Claro que não! Mas pêssegos são doces e macios...
- Então e as especiarias? É o meu ar exótico?
- Tu não tens um ar exótico… Mas, novamente, disse-o porque achei que ficava bem. Seja como for não sei descrever-te a que cheiras! Sei que vicia como chocolate. Sei que pede aproximação. Sei que se liberta e infesta o ar por onde passaste. Sei que o farejo, ao longe, como fazem os cães e o levo comigo para todo o lado onde vá, entranhado na roupa, como naquela noite em que te encostaste a mim e nem com água a ferver te consegui afastar.
(silêncio)
- Então adeus, oh andorinha!
- Então adeus, oh voador.

Sorrira para dentro, mas bem para dentro para não dar a perceber. Seguir-se-iam um “olá”, rápido e fugidio como água nas mãos, e semanas a temer um mero vão de escada.

5.9.06

A Carta

"Put the pen
To the paper
Press the envelope
With my scent
Can't you see
In my handwriting
The curve Of my g?
The longing"
(P.J.Harvey)
Dentro de ti guardaste uma carta com destinatário, mas rumo incerto. Levaste-a a passear a três ou quatro cantos do Mundo, sempre de olhos postos no firmamento como as andorinhas quando procuram o calor.
Nestes dias de ardência imensa, em que os homens descansam sob pomares e bebem sumos da terra para se refrescar, lembraste-a e fitando o escrito e libertaste-o ao vento.
Antes de levantares voo fitas o ontem de relance. Esse ontem cheio de frutos sumarentos e cor adocicada.
Semeias o que tinha ficado por dizer e jubilas com a tua própria permissão. Já não precisas engolir toda a água dos riachos, nem tão pouco ter o mar nos olhos.

4.9.06

Nem com maçãs te apago


Acordara mais cedo do que o habitual naquele dia e pensou ter engolido um sol. Sim! Um sol inteiro, quente e bulboso tal era o calor e a sede que sentia.
Soube desde logo que aquele não era um calor comum. Já o tinha sentido em tempos mas a chuva de fim de Inverno tinha-o conseguido apagar. Depois quando pressentia que o calor pudesse chegar, tratava de abrir a caixa de novelos que guardava no sótão e fiar uma mais história. Depois outra e depois outra, cada uma delas mais gélida que a anterior de forma que o Verão não chegasse.
Temeu o Verão mais do que qualquer outra das estações. Naquela manhã de Setembro, enquanto outros se preparavam para o arrumar na mala, sentiu a sua chegada. Era silenciosa para todos, menos para si. Em vez do sossego que todos pareciam sentir, ouvia a voz desse sol inteiro dentro de si.

Familiar como era, aquele calor, resolveu matá-lo, não com histórias contadas de “eu para eu”, mas com maçãs. Era isso! Sim! Maçãs! Passaria o dia a maçãs… umas depois das outras. Primeiro, vermelhas cor-de-sangue e depois outras tantas verdes (do verde mais frio e ácido que conseguisse encontrar). Se entretanto o calor persistisse comeria garfadas de gelo e mergulharia até ao fundo do oceano, não para falar com peixes mas para apagar aquele estranho arder.

A passagem do dia seria vagarosa, tão vagarosa que sentiria o lento andar dos segundos no grande relógio que cantava na sua pequena casa cor-de-rosa. O sol que sentia dentro de si parecia ter-se alastrado e infectado a própria casa, que, agora, pulsava como um coração gigantesco e contentor.
Seguiria o plano agendado e o verão daria lugar a um Outono precoce… Sim, tinha de ser! Não gostava do Verão – já o decidira e não voltaria atrás com tão pesada decisão. Odiaria o Verão, como até aí. Aquele era , afinal, um dia como os outros, marcado (talvez sim) de forma diferente no seu calendário… mas um dia como os outros.

Com o cair da noite, vestiu o linho mais fresco que tinha no armário, não fosse a temperatura subir outra vez e esfregou-se nas maçãs de pele castanha e áspera como a língua de gatos e de cheiro intenso, que lhe cobriam o chão do quarto.
Olhou uma última vez para o relógio barulhento. Mais umas horas e o novo dia chegaria. Se evitasse trocas de olhares, o sol apagar-se-ia assim como se tinha aceso, pensou.
Tudo correria como planeado a não ser por dois ou três lapsos - teriam sido mesmo tão poucos? Sentiria o sol crescer mais uma vez e nem mesmo o virar do calendário pareceria afectá-lo.

O convite para o mergulho tardio parecera-lhe, então, tão tentador como acertado. Mergulharia até ao fundo. Sim! Era esse o novo plano. Desde que evitasse ostras, o sol apagar-se-ia.
Não se viria a apagar, no entanto.
O calor, como uma infecção, passaria para a água do mar e para o corpo ao lado, ou teria sido ao contrário?
Parou de tentar contê-lo. Agarrou-o com ambas as mãos e saboreou-o sofregamente como se de uma sardinha assada se tratasse.
Sim chegara o Verão para si também e não o conseguira evitar. Tinha-se rendido a ele e à geografia dos seus próprios limites.


Não culparia aquele estranho sumo rosado com frutos a boiar. Não culparia sequer as maçãs ou o gelo que de tão quente não tinha apagado o sol. Não culparia sequer os olhos que teimavam em aparecer aqui e ali.
Culparia cada um dos novelos. Culparia cada uma das histórias por eles contadas. Culparia a casa que pulsava.
Sim… Chegara o Verão!

1.9.06

Explosão agridoce


Quase dois meses, sem aqui pôr pés ou escrever fosse o que fosse; em vez disso, dei comigo a magicar este e aquele post enquanto os dias corriam como areia entre as mãos. Bom... alguns dias!
Façamos o balanço:
Um ipod roubado – checked!
Uma pintura desaparecida – checked! (e sim… vai alguém pagar os 500 euritos! Mais não seja quem o tinha pedido para andar a tapar buraco em exposições, aqui e ali)
Malucos stalking me – checked! (dois detectados: ex-professora completamente perdida e junkie)
Trolhas e pintores por toda a casa – quantos “checked” devo pôr aqui?
“Cenas estranhíssimas”, chamemo-lhes assim! – checked! (e excluindo as outras!)

Ah pois… fora quase dois meses de “el doce faire niente”, nem sempre assim tão doces (mas quem não gosta de um pouco de agridoce?) e a caminharem para o fim. Corram! Corram grãos de areia… corram para outra praia. Uma a distância de um ano, não luz!

Mas antes disso:

“Excuse me
But I just have to
Explode

Posso? É que isto até para explodir está difícil!
Tenho de pedir “se faz favor”?
É que, desta vez, não peço.

“I'll be brand new

Brand new tomorrow

A little bit tired

But brand new!”
(Obrigado, oh Bjork!)

6.7.06

Matilde



Longe vão os tempos em que tomavas cafés adocicados enquanto vias, deliciada, os estrangeiros (e os conhecidos!) passar. Rias-te com os nossos comentários mordazes sobre os transeuntes e eu também!
Hoje a tua delícia é outra – olhas a ecografia da ervilha que abraças em ti, confortada pelo calor que ela te traz.

Não estás, contudo, certa das companhias de hoje ou de amanhã. A indeterminação segue-te, uma vez mais!
Não sabes o que ou quem irás consumir ou mesmo como morderás as horas que te seguem.
Tão pouco sabes se as tuas muralhas de cartão sobreviverão a intempéries que conheces como certas.
Sabes, apenas, a segurança de um começo.

És vagem que baloiça nos ervilhais contendo em si a promessa do amanhã.

1.7.06

O que te faz chorar?




- O que te faz chorar?
- Os filmes e as canções! Fazem-me chorar os filmes, mas só quando ninguém está a olhar… Sabes que os icebergs não derretem mesmo no Inverno, não podem verter água ou o mundo inteiro seria engolido. É uma questão de altruísmo, percebes? (risos)
- Sim. Tens razão! Icebergs não podem chorar.
- Então e a ti? O que te causa lágrimas?
- As saudades! As saudades matam-me! Não aquela simples melancolia ou tristeza que bate de vez em quando… Saudade, esse sentimento tão português!


E senti-me, eu, mais português nesse mesmo instante do que em semanas a levar com bandeiras e a ouvir falar de golos.
Tenho dito!