25.12.06

Espírito Natalício

In this festive season, Mary Christmas and Santa Claus are getting, each other, a divorce.

20.12.06

Coleccionador de areias




Wake up we're almost there,
just ten more miles it was such an affair,
that in all our lives we've waited for this day.
And there it is,
it's shining like gold and little different than the one before
and who would've though that you would contemplate.

(Josh Rouse, in Under Cold Blue Stars)

Quando a areia assenta, não há tempo para falsas tartarugas a discutir aritmética com Alice ou para pérolas atrevidas a se esconderem por entre as pregas da pele, por baixo da carne. Cantam-se canções quase desconhecidas para ninguém ouvir e ecoa-se de volta. Canto eu e cantas tu. Não nos ouvimos.
Tenho nos pés uma quantidade de grãos de açúcar mascavado. Pesam-me. Penso nas crianças que, aqui, correram quando o calor se sentia e no deleite dos coleccionadores de imensidões numa praia como esta. Colocariam uma pequena porção, decerto, em frasco não muito espelhado de forma a não turvar a vista, nem tão pouco muito exposto aos beijos atrevidos da luz que a gastariam. Não sei o que escreveriam na sua etiqueta com suas canetas de pena, compradas para a ocasião – esse ritual de a colocar.
Um grande “P” (sim, um pê!), flutua, no amarelo empardecido do oceano, ao jeito de calhau esquecido ou de mensagem não bebida e esquecida em garrafa por ler e tu ficas a olhar o tom rosado de um sol cansado e um céu que não se põe. A letra toca as fronteiras não desenhadas de figuras geométricas traçando rotas que não ficarão por seguir – certamente! Far-me-ei a elas em barco de papel.

Em prateleiras alheias e coleccionadas de praias, encontram-se continentes e durante a eternidade, dunas engarrafadas fitam-se como amantes impossibilitados de tocar por esse composto transparante, por eles formado.
Continuo nas minhas cantorias, adormecendo o menino do coro que há em mim.

Volto a colar-te frases soltas no tecto da língua, semeando-me.
Lê-me as entrelinhas, onde os icebergs derretem, enquanto pensares em postais de natal. Lê-me entrelinhas desenhadas em areia abafada pelo mar, durante três dias consecutivos e prometo que fico aqui.

This is not a story or a fable

Em terras menos longínquas, a incompetência e geografia de seus próprios limites tenta ser abafada por (excesso de) trabalho (para os outros!).

19.12.06

Os dias voam-me e o trabalho não avança!

15.11.06

Swallow's Ceremony


“(…)
Oh I'll break them down, no mercy shown
Heaven knows, it's got to be this time,
Avenues all lined with trees,
Picture me and then you start watching,
Watching forever, forever,
Watching love grow, forever,
Letting me know, forever.”
Ceremony, New Order, 1987

Num dia pardacento de Novembro, e com algum atraso, aterrou ao jeito de andorinha corajosa, não temendo intempéries invernosas na rudeza do calhau. O voo picado não cansara e com sua malha riscada e casaco de abafo mais quente, quais armaduras prateadas, fez-se ao céu menos azul e, em tom de desafio, entoou esse seu macio (ainda que inaudível para a maioria) canto.
Sem ninho ou mantimento de reserva rodopiou tendo consigo, somente, um sorriso maroto, mas envergonhado, e aquela estranha confiança a quem as coisas correm, repetidamente, bem. Como não acreditava em deuses da maioria ou, mesmo, aos esquecidos pagãos, fez ninho em menos de seis dias e não descansou no sétimo. Em vez disso, lá faz uns descansos ocasionais entre piruetas e voos contra-picados e adapta-se, SEMPRE, à corrente.
Passam ciclos e luas, ventos e chuvadas, beijos e beliscões. Passam caracois e tartarugas por todo o lado, e, também, ninhos por riachos e tutinegras pelo ar.


Quanto ao menino que, um dia, chorou desalmadamente por uma dessas aves da Primavera, morta entre o vento molhado e o pára brisas, cresceu, seguiu o conselho dado e esperou, ali, no virar da esquina onde a andorinha sorri para si.


Por fim, correm-se jardins, saltam-se festas e trocam-se beijos na madrugada. Ri-se bem alto e não se olha em volta.

13.11.06

Catarina II


Catarina lembrava-se de escolher aquela liga acetinada de cor branca, mal a vira na loja, numa tarde quente e ventosa. Mas isso de pouco interessava, hoje. Ria muito nervosa, como não havia gargalhado sequer , no escuro, nessa "primeira vez", como lhe chamavam.
Essa noite, em que o chão de madeira fora menos frio que a chuva que caía. Ao contrário, das suas amigas estava farta de esperas que não lhe faziam qualquer sentido. Nesse dia decidira que a pressa não seria inimiga da perfeição. O tempo passara e as noites como aquela repetiriam-se.
Agora, seis anos volvidos, deliciava-se com aquele medo adolescente de ser tocada, qual virgem envergonhada. Antes de sair do trabalho, chamou, histericamente, a colega Maria, que acabava de ser deixada, por um carro preto, na berma da estrada. Maria, uma mulher de quarenta e dois anos, mas que se vestia como se tivesse menos vinte, fitou-a com o sorriso frio que dava aos homens casados com quem tomava cafés depois do almoço.
Aquele mexer de lábios gélido parecia deitar ao chão todos esses sonhos vãos, afinal ela era uma das que “se usa sem agitar e sem fingir ternura”. Tirou a liga, no meio da rua e atirou-a para os arbustos repetindo baixinho, para si mesma em jeito de lenga-lenga, treze vezes “as putas não amam!”

Aconchego

Não é que os tectos de casas emprestadas ou castelos andantes lhe soubessem a pouco, porque sempre os sorvera com especial vontade, mas em dias vagarosos e indispostos, apetecia-lhe, muito mais, o conforto daquela concha de caracol, não alheia.

Da-da

Passara a manhã a pendurar palavras que teimavam em não pescar, pelo que resolveu atirá-las ao ar, ao acaso, em jeito de jogo dadaísta, como fizera, naquele dia, aos pedaços de céu caídos no chão.

9.11.06

An ocean wrapped around a pineapple tree


Os barcos de papel fazem portos em covas de sorriso e descem decotes, avizinhando mãos a seguir trilhos de pegadas, enquanto se dança na relva com o dormir do sol.
Mesmo assim, corre-se até à praia, e, em tom de desafio, testam-se limites. Em planícies, dali avistadas, onduladas a pincel e tesoura, rodopia-se até cair e diz-se o que à boca vem, sem freios, deixando soar.
E porque, noutros portos, a areia é outra, experimentam-se alternativas ao atirar roupas para o chão e perdem-se apostas, já que, uma vez mais, as punições são mais doces do que as vitórias. Fica-se cheios de grãos que como açúcar incomodam o corpo e entranham-se na carne, mas sem formar pérolas, como a penetrar saias de ostras. Por fim, ri-se muito, olha-se o despertar do sol e enrolam-se oceanos inteiros em bandejas de frutos.
Depois, dias, há, em que se deixam os mesmos barcos seguir a sua corrente, sentados em sorrisos que não damos, observando novas rotas, em oceanos de cartão.

Porque, às vezes, não tenho, mesmo, pachorra!

O ar rodopia em minha volta, quais andorinhas em mudança de estação, enquanto deixo sair esses gritos, fazendo dos meus lábios, saída de emergência e todo o meu corpo, uma casa em chamas.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

30.10.06

Truísmo

Preenche o teu espaço com dias, os teus dias com silêncios semeados e os nossos silêncios com tangerinas.

22.10.06

Saudade

Das pessoas que foram e, já, não são.

18.10.06

Criança?


Todo o santo dia!
Com ou sem folha de ouro a contornar.

Frio

“O L Á”

gritou-me, pomposamente e em tom de desafio, esse o teu cheiro, quando, em casa alheia, desdobrava um edredon rosado, para enganar o frio de um Inverno que, talvez, se avizinhe. Culpa o frio, por ter pensado em ti!

13.10.06

Finge


“Finge. Esquece. Engana o desencanto.
Brinda por ti, hoje e por enquanto!”
(Xana)

Não. Aquela não seria a sexta feira 13, prevista no calendário até porque se tinha perdido o medo do escuro e dos papões não seria um mero dia no calendário a assustá-la. Andrea ergueria a cabeça da almofada, iria às aulas, vestiria a sua melhor roupa e prenderia as ondulações do cabelo em molas tão cor-de-rosa como a atitude espirituosa que se queria. Não ouviria as gargalhadas, nem mesmo os comentários jocosos e não se sentaria no sítio, à parte, como de costume (mais não fosse porque a isso tinha sido forçada!).
O dia passaria a correr e a noite, quando chegasse, seria coberta de sorrisos adocicados mas falsos como se queriam.
Amanhã é um novo dia e chegará tão rápido como este chegou e os outros tantos e cada momento que passa é uma nova chance para fingir tudo outra vez.
Finge hoje, amanhã e ontem.
Dança e brinda às coisas que nunca foram e que não são.

Little Monsters sim, mas são os meus!


“In the playground children sing their songs and skin their knees play, little monsters, play
(…)
little monsters that rule the world you don't know what you're really saying stop before someone ends up getting hurt can't you see that we're only playing”

(Charlotte Gainsbourg)

De vez em quando, quando as coisas nos fogem do controle e prevíamos o pior, é tão bom sentar-se a um canto, esperar e ver os novelos correrem e fruir a surpresa das malhas que se tricotam.
Obrigado, oh “little monsters”! E que venham mais semanas iguais a esta.

6.10.06

A Mancha Vermelha


Após tê-lo morto usando ambas as mãos, encostou-se àquela parede coberta de papel riscado de vermelho, aborrecida por ter sujo o novo vestido branco e, calmamente, mordiscou uma sumarenta maçã verde preocupada em saber se a lixívia com que lavaria o chão, estragaria a seda da vestimenta.

Finge não perceber as sementes que te mando para o ar, ocasionalmente, e colhe os ventos que se avizinham, enquanto arrumo maçãs avermelhadas em caixas de papelão.

28.9.06

Pensar em grande

Isto a ver bem, até ao fim do ano, se a história se arrastar, muita cabeça vai rolar!

27.9.06

Quando eu for rei

E ao me chamar “menino”, com aquele tom de quem por algum motivo se julga superior a mim, pela centésima vez, dei o meu olhar mais feroz, saltei-lhe em cima e depois de a ter esmurrado até ver vermelho a sujar as carpetes brancas, gritei:
“Off with her head!”

O homicídio nunca fora tão doce ali ou em lugar algum.