12.1.07

Santas, Princesas e Ervilhas





Pedro Berenguer conta histórias no silêncio – espaço onde coabitam os corpos, os sonhos e os dias. As suas pinturas são territórios para as donzelas (de hoje, mulheres/manequins ou corpos, ou de ontem, figuras históricas ou santas, ou apenas mulheres com nome de baptismo) inventarem a cidade, a casa, o quarto, a janela, a carta… ou o olhar de alcatrão que penetra o espectador e baralha o seu mundo. São histórias. Era uma vez está ausente ou não se lê, sente-se. O fim, the End, é o devir de uma nova narrativa, de um corpo que habita a casa ou morre na concha de uma mão inventada. As palavras escritas (por linhas tortas, como as vontades dos anjos) procuram a bússola dos dicionários, dos livros, das revistas ou do ponteiro do relógio (e da hora apagada).
Vejo nestas pinturas (e no seu desenho) a ideia de alfândega – onde tudo é despachado, até os corpos, mortos (também podem ser moribundos porque os homens não separam a vida de pré-morte); até as palavras, inteiras (também podem ser fragmentadas porque os homens há muito que abandonaram a casa); até as cores, quentes (também podem ser frias porque os homens perderam o sentido do norte e do sul); até as cartas, escritas (também podem ser apenas páginas brancas porque os homens adormeceram).
Leio nesta pintura a ressaca de palavras baralhadas com sentido de ocultar/desocultar o eu (teu, meu ou dos outros) de um actor sem palco, sem texto, sem estreia marcada, mas com a coreografia desenhada num útero candidato a sonho.
Pedro Berenguer escreve histórias no silêncio – espaço onde os amores gelam nas ruas sem número de polícia. As suas pinturas revelam as bocas cadentes que estorvam os prazeres da epiderme e as paisagens (aqui corpóreas) são revestidas pela pele do corpo (e dos corpos) e da palavra (das palavras).
Rita Rodrigues
Dezembro de 2004

3 comentários:

Pedro_B disse...

Ah pois é... Essa grande mulher escreveu-o para mim. ;)

Sam disse...

Gabarolas, não sabes guardar isso para ti... ;)

Pedro_B disse...

Sam: Não sei, não! É texto de catálogo e o catálogo teve uma tiragem limitadíssima... e eu sou uma pessoa q gosta de partilhar estas coisas!


Para quem se der à maçada de ler isto... há um outro texto crítico do género em Fevereiro de 2006 (primeira entrada do blog).